12.1.11

Ela veio em minha direção sorrindo. O local era o mesmo, ela vinha de ônibus, vinha equilibrando um nervosismo divertido em suas sandálias e sempre tinha um maço de cigarro barato no bolso do jeans. Ela tinha aquele jeito de acender e tragar e tossir e virava o rosto fazendo um gesto com a mão que eu entendia como "tá tudo bem, sabe". Conversamos um pouco sobre o que cada um tinha feito ou gostaria de ter feito, ela me contou que os pais continuavam brigando e tudo ia mal, o trabalho não muito interessante, e então caminhávamos por ruas que seriam então uma de nossas boas lembranças. Ela que me mostrou o lugar com cheiro de alvejante e senhoras feias varrendo corredores com quadros assustadores de sexo e natureza. Eu tenho imagens nítidas daqueles corredores. Corredor de motel. Motel com nome de padaria do interior, recepcionista com cabelo tingido e balinhas de hortelã como cortesia. Tinha até uma saleta de espera. Contrangedor até a hora que te chamam pelo nome. Ríamos tentando adivinhar que tipo de relação tinham os outros casais ali folheando revistas como num consultório dentário. Sabíamos fazer piada com qualquer situação. Ela colocava a mão no meu pau por dentro da minha calça dizendo coisas no meu ouvido sem se importar com os olhares espantados ao redor. Seus dezenove anos eram poucos pra o que tinha dentro de si, vinha de histórias complicadas, de traumas insolúveis, decidiu que seria feliz e foi, me escolheu nesse caminho e então nos divertíamos rindo baixo no corredor daquele lugar. Quarto número cinco, cama quadrada, espelho pequeno no banheiro. Ela tirou os sapatos rapidamente, ela tinha uma habilidade invejável pra se despir. E me olhou daquele jeito enfurecido e delicioso. Sua boca derretia coisas ao meu ouvido enquanto eu tocava sua carne e mordia seus cabelos. Pensei naquele momento que eu a magoaria em breve, é sempre a mesma história. Antes de amanhecer ela se enfiou entre meus braços e abrindo os olhos bem devagar, ajeitando-se nua junto de mim, ela disse o que me faria perder toda e qualquer direção de mim mesmo "eu te amo" e fingindo não entender o que disse pedi que repetisse "eu-te-amo". As palavras saíram da boca dela direto pra dentro da minha vida, não lembro o que acontecera antes, não importava mais. Meio bobo e já descrente demais pra fazê-la entender quem eu era eu segurei seu corpo com coragem e a beijei "eu também..."
Amanheceu o primeiro dia de nossas vidas. E hoje, recortando reminiscências, lembro dos cafés da manhã que sempre deixávamos pra depois quando, cambaleantes e estranhamentes felizes, voltámos de mãos dadas e corações escondidos no bolso.

7.1.11

só por cinco minutos, eu preciso desse silêncio.
assim como preciso de todas as minhas convicções e desesperanças, duas doses ao cair da noite e um bom livro por perto. assim, oras, como preciso acreditar no que sinto pra continuar, mesmo sendo isso uma puta encrenca. assim como agora os barulhos vindos da cozinha já são outros, outra vez, e eu tenho tido medo de andar sozinha na rua de madrugada. como se fosse perseguida, ou como se estivesse sendo só ignorada. não, não me peça pra esquecer coisas, aquelas que também são minhas, não me peça pra ser gentil e jogar fora. faça somente a sua parte, eu cuido das minhas próprias feridas. como os gatos que se limpam e se cuidam, que saem por aí e não precisam de um afago, a menos que queiram um. um ponto final. um momento de paz e as suas histórias dos tempos no cortiço. uma amiga me contou que na grécia as pessoas não entendem a piada, aconteceu o mesmo comigo ontem a noite. saindo do cinema olhei pro outro lado da rua e notei fachadas e luminosos emoldurando a noite, pessoas falando sobre sonhos e desejos, um cara dormindo na calçada mais triste da avenida paulista. eu sonhando com pessoas que eu nem conheci e acordando atrasada. correndo até o ponto de ônibus, faminta, pensando tediosamente em erros recorrentes.

17.12.10

as vezes eu tenho medo de dormir sozinha no escuro, e de ficar com a ponta dos pés pra fora do cobertor. as vezes eu acendo um cigarro atrás do outro. as vezes eu repito a mesma história pras mesmas pessoas em noites diferentes, as vezes ninguém percebe. as vezes eu entro de olhos fechados debaixo do chuveiro. conto os passos na calçada, e as vezes mudo os meus pensamentos. as vezes eu ignoro os acentos, e desobedeço algumas regras. as vezes eu ligo pra algum amigo no meio da madrugada e peço desculpas por estar bebendo sozinha, e peço socorro pelo mesmo motivo. as vezes as pessoas que ficam não terão respostas, mas um abraço verdadeiro tem uma puta força. as vezes a gente resolve parar, olhar pros dois lados, a gente toma certo cuidado. as vezes não dá tempo. as vezes, mas só as vezes, eu me arrependo até doer, enlouqueço, sofro todos os males de uma vez só. as vezes é só um sonho ruim. as vezes você está por perto, as vezes eu prefiro ir pra um outro lugar.
as vezes eu sinto tanta raiva, as vezes medo. as vezes eu me recupero rápido.
as vezes aquela música linda toca no rádio.
as vezes toca só na minha cabeça. na verdade, não para de tocar, não para nunca.

24.11.10

pontadas no apêndice

quarta-feira, manhã, um engasgo.

Mal consigo enxergar o teclado ou a tela do computador, agora. Nem minhas próprias mãos, trêmulas, conseguem cessar o chorar, agora. Deus sabe que hoje eu queria (precisava) ler extamente aquilo, aquilo que você escreveu, e se não foi ele só pode ter sido o Diabo na tentativa de me socar ainda mais a cara. Deu certo, os dois me trouxeram ao lugar certo, e como eu queria levantar agora dessa cadeira e ir até aí te pedir um colo e um copo com água. Dois minutos de silêncio. Eu aprendi a dosar certas coisas, como o pó de café no filtro melita. Tenho sentido medo de dormir com a porta aberta, tenho tido pesadelos e tô viciada em criar histórias quais não consigo botar no papel. E você entende tudo isso, né Dri? Você entende quando eu digo que tô morrendo de vergonha e que meus ataques de cólera são tão malucos e angelicais quanto todo o resto do que eu digo, penso, mastigo e cuspo, não entende? Eu acho salto de verniz vermelho a coisa mais linda do mundo, no seu pé, e acho que os teus cachos deveriam ser proibidos porque depois de encará-los é impossível escapar. Eu não lembro como foi que isso aconteceu, e acho até que acontece toda vez que eu te vejo e lembro de uma frase do Caio F. que é mais ou menos "cada um tem seus processos... você precisa entender os seus" e eu não lembro como foi que isso começou. Eu te amo. Ontem, você sacou tudo, me olhou e riu, eu chorava de raiva, você também, por isso a gente rachou o bico. Me perguntou porque eu brigava tanto com o passado e eu disse que se soubesse te contava só pra gente fazer alguma piada, poque eu tava precisando tanto de uma, bem naquela hora. Eu te disse na frente do espelho que nós duas sofremos da mesma dádiva (pra não repetir a palavra loucura o tempo todo), rachamos o bico e talvez abrimos mais uma fenda no tal muro de nossas lamentações. Porra, eu achei que tava no meu melhor disfarce, daí você se aproximou com o riso rasgado e me pergunto aquilo, sobre aquela raiva que eu tava tentando esconder (mentira, tava nada, você percebeu isso também) chutando lata no escuro.
Rachamos o bico! Espero que seja pra sempre assim.

23.11.10

É HOJE >> E É OBRIGATÓRIO:




Palavras da autora/editora:


No dia 23 de novembro, terça-feira, estaremos comemorando o lançamento do meu livro e também o início das atividades da Panelinha Books.


Nosso assessor de imprensa Ademir Muniz veio com essa "é muito bom ver um projeto que sai do papel, ou nesse caso, vai pro papel!"


É isso.

A Panelinha vai jogar tudo no papel, e com responsa.


*

*
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Serviço:
Coquetel de lançamento do livro “Os tiros vêm do paraíso” + festa de “inauguração” da Panelinha Books
dia 23 de novembro de 2010, terça-feira
(HOJE)
20hs
Club Noir (r. augusta, 331)
entrada franca
preço do livro: R$ 10,00
*
*preço promocional apenas para o dia do lançamento


(Luana Vignon)

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E eu queria poder escrever agora tudo que penso e sinto quando leio os poemas dessa minha Amiga, mas me calo, e abro num sorriso tudo quanto importa no dia de hoje: alegria!

Parabéns Luana, eu sou sua fã!

6.11.10

ela terminou de tricotar o meu casaco e levantou a mala leve, eu nem precisei ajudá-la a carregar a mala até o táxi. tirei um trocado do bolso mas não estendi, seria demais pagar pela despedida. sempre achei muito bonito vê-la tricotar no sofá da sala, ela ficava em silêncio e as vezes resmungava algumas músicas e eu dizia "isso é bonito mesmo" e ela sorria frouxa sem tirar os olhos das mãos. eu ligava a televisão e smepre na hora da novela ficávamos em silêncio tricotando pensamentos e ruminando silenciosamente idéias e sonhos e jantares que devíamos a algumas pessoas. é sempre previsível, as novelas, aquelas frases feitas e uma trilha sonora horrosa. comentávamos "oh querida, você acredita nisso? eles vão se dar bem no final, todo mundo se dá bem no final". eu a conheci numa tarde de blues, ela veio na minha direção e me perguntou onde ficava o corredor dos enlatados, respondi numa tacada e ela sorriu. foi o único sorriso tranquilo depois disso. inventei um jeito de responder a essas perguntas mesmo sem muitas certezas. um supermercado pode ser a única referência no fim. ela nunca gostou dessa minha falta de jeito ou de afeto ou de coragem. uma vez eu disse a um amigo que eu estava feliz, uma outra eu disse que a bebida me enganava. sabe aquele minuto indiscreto de contentamento? já pensei em recomeçar uma porção de coisas, já pensei em telefonar pra aquele mesmo amigo e me desculpar, não que eu ou ele acreditássemos em arrependimento. ela passou muito tempo fazendo coisas e eu fazia coisas e as coisas faziam de nós tão estranhos quanto todo o resto. e aos poucos a casa ficava mais vazia. assim como aquelas gavetas que desistimos de abrir, não dá pra faxinar todas as lembranças. ela terminou o tricotar, eu acendi um cigarro, podia ter sido como naquelas novelas, como sempre acontece, e eu ainda acredito que os corredores mais perigosos não são aqueles dos enlatados.

27.10.10

Dallas - nova temporada!

né, Dri?

23 de Novembro - no Club Noir

clica na imagem
"Confirmada a festa de “oficialização” da Panelinha Books & lançamento do livro “Os Tiros Vêm do Paraíso” (Luana Vignon).

Anotem: será dia 23 de novembro, no Club Noir, às 20h."

5.10.10

e quando está daquele lado indiscreto pra onde insistimos não olhar, aquele lado cheio de sons e cheiros e que olhando daqui parece muito, muito perigoso a noite, ou em qualquer hora do dia.
o que tem dentro do envelope que você carrega seguro no peito?
porque algumas pessoas vão te decepcionar tantas vezes até que você aprenda que erros e mágoas e lembranças e desculpas não são a mesma coisa. os teus amigos não vão mais se preocupar com o que você fez de si mesmo. suas contas vão continuar chegando por debaixo da porta. o carteiro ainda terá problemas com os cachorros da vizinhança. a mulher mais triste que você já conheceu na vida ainda será a única mulher da sua vida. e quando estiver absurdamente cansado ainda não terá coragem de abrir a correspondência, de desligar os eletrodomésticos, de tirar as chaves do carro do bolso da calça. e vai continuar cultivando segredos.
alguém vai dizer que tá tudo certo. e sentirá tanta raiva que vai enfiar a mão na parede de cimento, assim, sem pensar muito. e quando isso acontecer vai encarar os dedos quebrados, a mão cheia de sangue, e o buraco no muro de cimento, e se ainda não estiver louco o suficiente vai conseguir enxergar do outro lado. depois disso não tem mais volta. porque abrir buracos requer um equilibrio entre o céu e o inferno que alguns nunca vão ter, e você sabe disso, e é por isso que rasga os tickets do supermercado, os cartões de visita do chaveiro, aqueles bilhetes irreparáveis. e ainda acaricia mágoas que julga suficiente pra uma vida inteira.
as coisas vão continuar indo e vindo, assim como as pessoas, como as horas, folhas caindo, os carros da polícia, as sombras trocando de lado conforme a posição do poste na esquina, assim como aqueles buracos que nunca fecham. porque não se trata de heroismo ser sozinhho. algumas vezes é quase a única saída. ou o quanto te sobra.

28.8.10

Ou é aquele desejo interminável de te - me - encontrar outra vez. Entrar no supermercado e rodar corredores sem ter em mente o que comprar, de detergente ao achocolatado, cerveja, pão, não comprar nada e voltar pra casa cultivando um tipo estranho de solidão. Ou aquela música fudidamente bonita que você canta rouca tirando a roupa e jogando a sua calcinha de algodão bem no meio da minha cara, esfregando em mim aquele refrão que nunca mais soou nos corredores da casa. Números discados no telefone, milhares, ninguém atendeu aquela ligação que eu deveria ter feito, mas não fiz. Não é verdade que as piores coisas do mundo saíram do guarda roupa da gente? Pelo menos parece que é assim quando a gente volta e encontra tudo no mesmo lugar, no lugar errado. Cansaço. Uma última chance pra uma história acabada, mas que nas fotos parecia eterna. Linda, a história de amor dos donos da rua, linda como você entrando naquele bar com o dedo apontado pra minha cara e indo embora balançando frases soltas e terrivelmente sinceras. Cabelos brancos tantos quantas vezes as coisas podem, e quase sempre dão, num final deslocado, fora de foco, sem prêmios além de loucos corações em mil pedaços. Pés doloridos tanto quanto a paciência passa da conta, e passa, e passa bem longe. Assim como a consciência, na mesma medida de uma ressaca. Falível como as nossas brigas por quase nada, porque é assim mesmo baby, é quase nada.

19.8.10

as minhas descrições

Eu tava olhando pra você enquanto o olhar dela te emoldurava e por alguns terríveis quinze segundos, inteiros, você me evitou. Sem saber o que fazer com todos os meus milhares de pedaços espalhados pelo chão me levantei e fui mijar, na verdade só fui até o banheiro e encarei um olhar nublado e assustado na frente do espelho. Pensei naqueles filmes em que a janelinha está sempre entreaberta e então eu fugiria dali pelo fundos. Me refugiei em metáforas e voltei contando os passos um atrás do outro, eu tentei não te encarar. Porque jurei que nunca mais vou borrar um sorriso seu. Você tava sorrindo. Sentamos, erguemos os copos, e você segurou na minha mão bem na hora que eu ia derreter, e eu fiquei ali pra ouvir o resto da conversa, na verdade eu fiquei ali porque não havia nenhum outro lugar do mundo em que meus pedaços soltos e espalhados no chão não se perderiam. E nada se perdeu, então.

2.8.10

Entramos no banheiro fazendo graça como crianças que aprontam escondidas dos adultos. Era noite de festa, todos riam e dançávam, todos nós bebíamos. Ele disse que tava com sono, tava com sono mas ficou ali e eu enfiei minha mão na sua calça. Eu enfiei minha língua na sua boca, minha insanidade no seu bolso e fiquei ali sorrindo o meu sorriso mais incrível. Na verdade eu tava tão feliz que nem notei aquelas situações que a noite sempre deixa escapar. Acabou o cigarro, eu precisava caminhar um pouco, tinha muita coisa na minha cabeça e eu tava com medo de explodir e sujar tudo, tudo aquilo que eu tava torcendo pra nunca mais acabar (pelo menos por toda a eternidade que cabe numa noite agradável). Ele me fez compania, ele fingiu que não tava atento quando eu acertei o meu passo no mesmo passo que ele, ele tava pisando forte igualzinho os meus pensamentos, e a gente entrou na loja de conveniências do posto de gasolina. Compramos cigarros, três maços, dividimos um no caminho de volta. E foi no caminho de volta que eu me pendurei no seu pescoço e beijei seus lábios como se nunca mais eu fosse te ver. E talvez não veria... mas seu pau entendeu o meu beijo e nos escondemos atrás de uma árvore pequena, na calçada, e se ninguém tivesse visto a gente tinha ficado um tempão ali. Porque a gente tinha colado um no outro. Daí a gente entrou escondido naquele banheiro, puta fila no lado de fora, a gente ria baixinho, e a gente confessa pecados baixinho também. Seu gosto, seu cheiro, a sua mão segurando o meu peito e esmagando medos. Sexo como quem acaba de descobrir um tesouro, aquele oásis no meio do deserto. Minhas mãos contra a parede, suas mãos apertando minhas coxas e a gente rindo por dentro e por fora. A gente colou mesmo, a gente quase trocou de corpo e de juízo. Eu faria qualquer coisa pra te explicar cada pensamento maluco que tava na minha cabeça, mas você me olhou como quem tava sacando, mesmo que tristemente a gente se entendeu. E a gente sentiu tanta falta. Foi um segredo que dividimos em silêncio absoluto. E quando entrei no táxi fiquei olhando você virar a esquina, você não olhou pra trás, eu torci o pescoço até o final da rua, e cochilei o resto do caminhho.

28.7.10

Apóia a cabeça na pia, na pia do banheiro, abre o registro e fica olhando a água cair. Não era de loucura que falávamos ao telefone? Tô aqui pensando na sua bunda, nela todinha, nela gentilmente me acompanhando num trago. Conheci uma garota muito parecida contigo. Ela tem quase a sua idade, quase a sua doçura também. Mas é uma outra garota e eu tenho encontrado com ela no escuro, naquele beco frio onde você se despediu de mim. Escrevemos cartas um ao outro e eu pedi que assinasse seu nome. Porque eu ainda penso em você. Nos teus peitos colados na minha pele assistindo tv no fim de semana. Até trepamos usando as tuas lembranças. Um maço inteiro de cigarro não tira o seu cheiro das minhas mãos. Nem o gosto de sexo novo na boca, meu pau duro as três e meia da manhã, nada tira você de mim. Eu desliguei o telefone ainda com suas palavras fodendo comigo "bobo! você sabe que eu te amo." e eu desejei um milhão de vezes querer odiar você. Daí encontrei aquela sua fotografia no carro, você sem nenhuma roupa, lábios vermelhos com batom, eu tinha beijado seus cabelos antes de bater a foto. E você tava se despedindo...

22.7.10

sabíamos

Desde o começo. E nunca mais seríamos os mesmos, nossas vidas funcionavam juntas, numa ordem desgovernada, ás vezes confusa. Doía. Cada vez que ela arrumava suas coisas, cada vez que voltava trazendo de volta olhos inchados. Perdemos. Muito de nós dois, a individualidade tirou férias eternas, o meu corpo e o seu corpo transpiravam juntos, não dava pra não perceber mas era um contrato ilimitado esse nosso. Cansávamos. De todo o desprezo que insistíamos tentar confrontar, de toda a angústia que a ausência rara marcava, das minhas mãos frias em seus seios, dos teus seios frios cruzando a rua. Sonhamos. Com quintais, filhos, amantes, um assassino como naqueles filmes, um outro domingo, um outro amigo em comum contando segredos que nós dois inventávamos. Dormíamos. Dormíamos.
Pedi pra não abrir os olhos, era uma coisa ruim de levar na memória, mas você não deu ouvido, e foi caminhando naquela direção, e foi caminhando pra muito longe de onde eu pudesse cuidar de você. Por que fez isso? Minha linda, por que você fez isso?
Esquecemos. Você primeiro, de você mesma primeiro, e de todo o resto em tão pouco tempo (foi rápido demais, não foi?). Esqueci. De que não era só te abrir os olhos, não era só cercar os portões dos teus descaminhos, talvez eu devesse ter ido até lá e não sei o que faria, mas estaria mais perto daquela areia movediça e daquelas sombras esquisitas. Você se foi. Eu fui também. Nós tínhamos um plano, e esse contrato eterno de sermos um do outro (você é minha, ainda). Bebíamos. Muito mais do que aos outros incomodava, muito menos do que as nossas vidas suportavam. Amamos. Os dois, as unhas, carnes e seus cabelos finos presos nas minhas roupas, nas minhas costelas e seu Cheiro dentro de mim, inflando os pulmões, socos, beijos, sua bunda em tudo que faço, aquela cama/refúgio onde nossos personagens e algo muito, mesmo, bem próximo do que você me explicava sobre felicidade. Sua voz. Sua música, seus ruídos, suas unhas vermelhas roídas. Medo. De que você fosse mesmo a mulher mais linda do mundo (e eu absolutamente certo disso), de que você não voltasse, ou da minha própria partida. Raiva. Porque minhas atitudes sempre foram precedidas de nenhuma cautela, porque suas fantasias sempre foram as maiores vilãs do meu ciúme, medo da vontade insuportável de nunca sair de perto de qualquer lugar onde estivéssemos juntos. Razão. Por ter sido você aquela menina no ponto de ônibus, por ter sido eu o cara que te emprestou aquele livro. Lembranças... Quando as coisas estão mais distantes, quando é a saudade aqui onde você TINHA que estar. Da primeira vez que você abusou dos teus limites e eu estava ali, mas não estava ao mesmo tempo. Amor. Por cada vez que você tirou a roupa olhando dentro dos meus olhos, por cada segredo que me contou no meio da madrugada, por sua pele cobrindo minha vida, por minha vida abrindo espaço pra você, por você louca rindo e gritando no meio da rua a piada mais engraçada do mundo, que nós inventamos, por viagens que nunca fizemos, pela família que nunca conhecemos, por nosso livro mágico, por nossos cigarros queimando num cinzeiro no canto do bar, por nossa cerveja descendo gelada e nossas vozes cruzando a maior e mais inexplicável sensação que alguém pode sentir, por nossas ressacas, nossas brigas, nossas declarações despudoradas, bêbados disfarçados no elevador, nossas roupas molhadas de chuva, nossas gripes e nossa varanda.
Tempo. Que não me agrada, que não nos deixa escolhas apenas muitas e muitas melodias. Tristes melodias. Um blues mudo, que morre nos teus ouvidos.
(2008)

8.7.10

Aê Pagoto!

Hoje e amanhã a banda Saco de Ratos se apresenta no Centro Cultural São Paulo.
Lançando o CD "Saco de Ratos - Velhos Bêbados Barrigudos Tocadores de Blues".
Hoje: 18:30h
Amanhã: 12:30h
*Nos dois dias a formação da banda é :
Mário Bortolotto - Vocal
Marcelo Watanabe e Basa : Guitarras
Fábio Pagotto : Baixo
Rick Vechione : Bateria



(Rick Vechione, Fabio Pagoto e Mário Bortolotto - foto de Luiz Filipe "Ogro")


Lançamento do CD - Velhos Bêbados Barrigudos Tocadores de Blues
Hoje, às 18h30 - Amanhã, às 12h30
Centro Cultural São Paulo (CCSP)
Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso - Sala Adoniran Barbosa

Tel. (011) 3397-4002
Grátis!



A jornalista Adriana Del Ré entrevistou os caras para o JT, a entrevista saiu no jornal de hoje.

Segundo o Ademir a versão on line está mais "resumida" (ainda não li no jornal).

E dá pra conferir também a entrevista que eles deram para a Rádio Web do CCSP:

Saco de Ratos

3.7.10

Paula Klaus


um sorriso.

ps.

Fui caminhando e pensando no que eu tenho tentado entender, recuperar, consertar. Até perdoar. Alinhando datas, relembrando frases, gestos, despedidas, mentiras minhas, e tudo vinha numa longa linha tão triste que meus passos na rua foram ficando cada vez mais curtos, até que eu parei, sem ar, o rosto todo molhado, soluços, socos na perna com a mão fechada. O que é que tá acontecendo?
Revirei a minha bolsa olhando pro lado da rua onde não havia nada além dos portões fechados de algumas casas, acendi um cigarro, fechei a bolsa tão desatenta ao zíper (numa daquelas tentativas de disperçar) que quase prendi o dedo. E não ia doer, não ia. Não estava tão interessada em entrar naquele lugar e encontrar as pessoas, histórias, ouvir música e beber alguma cerveja, mas dar meia volta e enfrentar aquele diário que eu tirei de dentro da cabeça e deixei em casa era assustador também. Daí aquela música do George Harrison começa e é a única coisa que eu ouço, tudo ao redor silenciou. Me esforço pra reagir de outra forma mas é tarde demais e tudo começa a doer ao mesmo tempo de um jeito tão filho da puta. E derrepente não havia mais anda além daquela música que tinha encontrado o caminho pros sentimentos e coisas que eu tenho evitado. Nunca tinha me sentido tão secretamente deslocada. Talvez me senti sozinha, sei lá.
Eu não sei como parar isso, não é fácil pensar em "daqui pra frente" e manter o controle, pra mim não é. Eu ouço tudo, tento administrar, faço uma lista, revejo fotografias, atendo meu telefone desapontada e passo o resto do dia e da noite com a mesma vontade de te encontrar. Absolutamente. Só aquela sensação de 'estar por perto' não resolve. O coração perdeu o jeito. Tenho tentado reunir a razão e a emoção numa mesma sala, a franqueza e a resiliência pedem a palavra, daí eu abro meus olhos e estou atravessando fora da faixa sem vontade nenhuma. Eu nem sei pra onde eu tô indo.

1.7.10

e tem aquela noite que podia ter sido,
e tem aqueles trocados no bolso junto de um bilhete
que nem deu tempo de te entregar,
e tem esse troço estranho dentro da gente,
e dentro de mim
essa raiva que resolveu entrar pra me ensinar umas boas,
e tem isso e aquilo que é melhor nem pensar muito.
pra não sofrer - foi o que você disse.

o sofrimento é irmão do proprietário,
e não faz acordo depois do quinto dia.