12.1.11

Ela veio em minha direção sorrindo. O local era o mesmo, ela vinha de ônibus, vinha equilibrando um nervosismo divertido em suas sandálias e sempre tinha um maço de cigarro barato no bolso do jeans. Ela tinha aquele jeito de acender e tragar e tossir e virava o rosto fazendo um gesto com a mão que eu entendia como "tá tudo bem, sabe". Conversamos um pouco sobre o que cada um tinha feito ou gostaria de ter feito, ela me contou que os pais continuavam brigando e tudo ia mal, o trabalho não muito interessante, e então caminhávamos por ruas que seriam então uma de nossas boas lembranças. Ela que me mostrou o lugar com cheiro de alvejante e senhoras feias varrendo corredores com quadros assustadores de sexo e natureza. Eu tenho imagens nítidas daqueles corredores. Corredor de motel. Motel com nome de padaria do interior, recepcionista com cabelo tingido e balinhas de hortelã como cortesia. Tinha até uma saleta de espera. Contrangedor até a hora que te chamam pelo nome. Ríamos tentando adivinhar que tipo de relação tinham os outros casais ali folheando revistas como num consultório dentário. Sabíamos fazer piada com qualquer situação. Ela colocava a mão no meu pau por dentro da minha calça dizendo coisas no meu ouvido sem se importar com os olhares espantados ao redor. Seus dezenove anos eram poucos pra o que tinha dentro de si, vinha de histórias complicadas, de traumas insolúveis, decidiu que seria feliz e foi, me escolheu nesse caminho e então nos divertíamos rindo baixo no corredor daquele lugar. Quarto número cinco, cama quadrada, espelho pequeno no banheiro. Ela tirou os sapatos rapidamente, ela tinha uma habilidade invejável pra se despir. E me olhou daquele jeito enfurecido e delicioso. Sua boca derretia coisas ao meu ouvido enquanto eu tocava sua carne e mordia seus cabelos. Pensei naquele momento que eu a magoaria em breve, é sempre a mesma história. Antes de amanhecer ela se enfiou entre meus braços e abrindo os olhos bem devagar, ajeitando-se nua junto de mim, ela disse o que me faria perder toda e qualquer direção de mim mesmo "eu te amo" e fingindo não entender o que disse pedi que repetisse "eu-te-amo". As palavras saíram da boca dela direto pra dentro da minha vida, não lembro o que acontecera antes, não importava mais. Meio bobo e já descrente demais pra fazê-la entender quem eu era eu segurei seu corpo com coragem e a beijei "eu também..."
Amanheceu o primeiro dia de nossas vidas. E hoje, recortando reminiscências, lembro dos cafés da manhã que sempre deixávamos pra depois quando, cambaleantes e estranhamentes felizes, voltámos de mãos dadas e corações escondidos no bolso.

4 comentários:

Adriana Brunstein disse...

Por que nós duas temos essa mania de escrever como machos? É chique?

Klaus disse...

É menos doído, acho. Eu nunca consegui escrever nada muito interessante usando a primeira pessoa (eu), fica tudo muito evidente. E os machos podem mijar de pé, eu adoro descrever isso.
Eu já tô com saudade, Bad Girl!

Beijo!

Tim.

Mayra disse...

Lindo texto, Klaus. Não mais lindo que você, óbvio! : )

Anônimo disse...

Mayra,
obrigada!!!
então a senhorita sumiu?
beijo!

Paula Klaus