13.5.10

DOMINGO 16/05/2010

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5.5.10

Sentou na cadeira mais confortável do café, um lugar bonito, cheio de quadros e mesas com toalhas, cheio de gente nenhuma, garfos pequenos e grandes, brilhantes como os olhos daquela mulher de pernas cruzadas em xis. Se esperava por alguém então devia ser um tipo bem jogado, um tipo do qual uma mulher esperacorajosamente, ou músico ou poeta, porque homem ideal não se atrasa e prefere restaurantes, contas absurdas, bebida ruim e piada sem graça, a pior espécie. Alguém marcaria um adeus no meio do dia? Porque um adeus no meio do dia não é adeus de verdade, não pode ser pra uma mulher com aquela cicatriz quase escondida abaixo do queixo. Talvez estivesse ali desde menina, a cicatriz. Talvez desde a infância suas pernas estivessem cruzando caminhos mais dolorosos, em tardes como essa, esperando algo que nunca chega inteiro na metade do dia, coisas que não podemos comprar em lojas de departamentos, aquelas coisas absurdamente lindas que a gnete enfia no bolso e esquece. Respirando devagar, fingida, socando lágrima dentro da cara, virando páginas de uma revista da qual nem faz idéia ter retirado da prateleira. Olha o relógio, vira o pescoço pra observar qualquer coisas invisível, ao lado, deixando a mostra os brincos pendurados numa orelha pequena, orelha que eu morderia com afeto de um desconhecido. Lá fora carros ultrapassando semáforos nervosos, lavadores de carro uivando pra universitárias deliciosamente carentes que exibem seus cadernos e seus decotes numa avenida que nunca pára. O relógio no pulso moreno parece falhar, aperta os olhos, aproxima o pulso da orelha e suspira, as horas continuam a corrida insana do tempo. Ela tira um batom da bolsa, uma bolsa pequena, surrada, vasculhou secretamente mas sem muito interesse, tirou o batom que esfregou com raiva nos lábios, pequenos, lábios que não queriam compania. Seus pés trocavam de lugar, ela não olhou mais ao redor, nem consultou o pulso, cansou daquela brincadeira com o tempo, com o pensamento. Recostou a cebça e fechou os olhos, eu queria arrancar daquela roupa o corpo moreno da criatura calada que enchia aquela cadeira de carne, de cheiros, de uma imensidão de segredos. Ninguém percebeu os pulmões forçando o ar pra fora, ninguém chegou pra ouvir o que ela tinha a dizer. Talvez fosse a tarde de aniversário dela e alguém deveria ter lembrado disso, eu sabia, talvez aquela bolsa surrada estivesse cheia de desejos, ou de desculpas. Levantou esticando as pernas, ajeitou a calça nas coxas, riu de alguma coisa que só ela viu. Eu ri também, logo que se mexeu pra ir embora, e quando ela ficou de pé os cabelos serpentearam pelo ombro e um botão da blusa caiu, tinha uma tatuagem no seio, alguma coisa bonita, tão colorida, alguma coisa que se perdeu por aí.

22.4.10

Charles Bukowski

jogue os dados

se você for tentar, vá até o
fim.
senão, nem comece

se você for tentar, vá até o
fim. isso pode ser perder namoradas,
esposas, parentes, empregos e
talvez sua cabeça

vá até o fim . isso pode ser não comer por 3 ou
4 dias.
pode ser congelar em um
banco da praça.
pode ser cadeia,
poder ser o ridículo,
chacota,
isolamento.
isolamento é a benção.
todo o resto é um teste na sua
resistência, de
quanto você realmente quer
fazer aquilo.
e você vai fazer
independente da rejeição
e das piores dificuldades
e será melhor do que
qualquer outra coisa
que você possa imaginar

se você for tentar,
vá até o fim.
não existe outra coisa que vá te fazer sentir,
isso. você estará sozinho com os
deuses
e as noites se inflamarão em
chamas.

faça. faça. faça,
faça.

até o fim.
até o fim.
você guiará sua vida direto para
o riso perfeito, é a única boa briga
que existe.

19.4.10

alô!

oi!

ALÔ???

vamos ficar nisso até quando?

geralmente respondem com uma apresentação...

viu o recado?

ouvi

e?

ouvi, já disse

então estava esperando que eu ligasse

não, eu queria que ligasse, mas não fico esperando por isso como se acreditasse mesmo nisso

vai começar a dizer que eu tô sempre errado, não vai?

você tirou de mim esse oficio, eu não comecei nada dessa vez

e agora?

você me ligou, e eu tô tentando fingir que tô indiferente, mas você me conhece até ao avesso, não é?

é

e vai me pedir desculpas?

...

quando sai o seu ônibus?

hoje a noite

ja é de noite

depois das onze, só

então ainda não é noite pra você?

é, mas ainda não é noite de verdade

tô com fome

hum...

você disse, no recado, que ligaria ontem, mas eu sabia que não ia ligar, porque me daria tempo de descobrir seus horários sem precisar te perguntar e iria me despedir na rodoviária

você faria isso isso, mas eu disse no recado que partiria hoje, eu disse até o número do código de barras da minha passagem

você não disse

falei sobre saudade, no final, você desligou rápido, então?

...

vai comer o que?

pipoca, com catchup

você sabia que eu ligaria, e ficou esperando ao lado do telefone, e não comeu nada até agora por ansiedade?

me pegou

sério?

peguei você!

volto em quinza dias

mentiroso

volto em quinze dias, quer apostar?

você não paga as apostas, tá me devendo a outra ainda

se eu voltar, deixamos elas-por-elas então

se?

não posso criar um suspense?

você é ruim pra isso

fica mal educada quando está com fome?

hahaha!

adoro essa risada...

volta mesmo, né?

em quinze dias

ainda não comi nada, e se eu ficar doente?

se ficar doente não queira me encontrar, tenho nojo de nariz escorrendo, e essas coisas

covarde

manhosa

eu posso ficar manhosa, eu vou ficar aqui sozinha, me deixa em paz

não vai, eu te ligo, mando e-mail, se quiser tento me materializar todas as noites pra sua casa

e vamos começar a discutir como loucos

vamos!

sabe a diferença entre algo importante e algo urgente?

a definição correta, do dicionário?

quando algo é urgente precisamos resolver imediatemente, pode causar sérios problemas, mas não nos interessa completamente, falo de urgência como algo que permanece externo... quando algo é importante não precisamos, nem conseguimos, agir só com rapidez, porque é algo que vale tanto a pena, é algo que muda tudo, algo que sai da gente com certo sofrimento, mas é uma coisa estranhamente boa...

você é importante pra mim

volta logo, tá?

come direito! e pára de pensar em tantas coisas ao mesmo tempo, acaba esquecendo de pensar em você

eu sei, vou fazer as coisas de outro jeito

preciso ir, ainda preciso passar uma camisa

e se esquecer o ferro ligado em cima da cama?

não vou esquecer

vai esquecer de mim?

não me lembro de como as coisas eram antes de você...

volta em quinze dias, boa viagem!

um beijo, menina

escuta...

eu que vou dizer isso, mas na volta...

o que falou sobre saudade naquela mensagem?

que sinto falta de algo muito imortante pra mim

tchau

tchau, um beijo!

um beijo de boa viagem!

15.4.10

Tô me retorcendo filhadaputamente pra desfazer esse nó, não importa o tipo do nó, ele tá aqui e tá sufocando. Tô indo e voltando do inferno, sete vezes ao dia, as vezes oito. Remorso, tenho topado com ele todas as manhãs, é um cara feio, baixinho, escarnece com dentinhos podres, cospe no chão e não te larga, ele não vai embora com um pedido educado, ele não vai.

Quando cansa pensar já é hora de acordar e sair de casa, trabalho, rua, ''olás!" desinteressados. Fodeu. Aquele pedacinho que eu tinhaa agarrado com toda a força, aquele pedacinho cru de alegria que me fazia querer gritar todo o sentido das coisas, porque havia um sentido em todas as coisas e eu via naquele pedacinho cru, esmigalhou-se, assim como o meu coração, que não é só músculo. Assim como o desespero de não ter mais a sua sombra com a minha por aí. Assim como o medo de ficar tão sozinha quanto essa sombra. Assim como a falta de coragem pra voltar lá, de ouvir tudo aquilo, de encarar todos os defeitos, todas as falhas, de encarar você sem poder te dizer que eu te amo pra sempre. E sinto tanta falta de poder dizer isso sem cercar de dúvidas a nossa vida, a nossa cama, a nossa salada de tomates. Não tenho um diário, mas se tivesse um hoje começaria a escrevê-lo assim acabou, então...

9.4.10

ouvi passos no segundo andar, passos de fuga. passos tão assustados quanto fiquei aqui, embaixo, esperando os gritos ou a polícia. e se vierem armados, fico olhando por trás da cortina, não confio neles. ela quando veio morar aqui não usava vestidos acima dos joelhos, acho que o marido não gostava de discutir com tantos bêbados que se apaixonavam por sua magrinha esposa. eu me apaixonei por ela no segundo exato quando nos cruzamos na porta da frente do prédio, ajudei com umas caixas, ofereci uma bebida no meu quarto e declarei logo que morreria por ela. me chamou de louco, riu do meu choro de bebê e nunca mais nos falamos. hoje ouvi passos mais agitados. costumo me sentar na cadeira no fim da tarde, antes das seis, e no meio do silêncio sepulcral do meu quarto surgem os passos dela, passos que vão até o banheiro pra fazer xixi, imagino sua calcinha úmida, conto seus passos até a cozinha e pelo cheiro, que as vezes invade o meu andar inteiro, sei que ela toma muito café. os banheiros são empilhados nesse prédio, tomamos banho juntos, ela lá em cima nuazinha, ensaboando o corpo pequeno, tão magrinha, tirando meu ar, me fazendo sofrer aqui embaixo, sozinho e pelado, com uma espinha inflamada na nádega. tão adoráveis seus passos até o quarto, o barulho da cama no assoalho, ela se deita antes de se vestir. deve ficar entediada, deve pensar que o marido não gosta dela tanto quanto diz, deve pensar em mim, o vizinho louco que não sabe nada do amor. e fica lá deitada, sem roupa, com a pele trêmula, pensando em quão infeliz está e quanto tédio cabe num apartamento de três cômodos. deve ter se enforcado com o lençol, sem nem ao menos pensar em vestir-se. agora o marido está preocupado com a polícia. ele tem aquela cara de marido, mesmo, deve ter outra família, talvez no interior, um filho de sete anos que joga no time dos moleques do bairro. uma esposa treze anos mais velha e cansada demais pra reclamar sua ausência. paga dois aluguéis e agora vai economizar um bocado, o que vai fazer sua mulher e seus filhos do interior um pouco mais satisfeitos. mas com a polícia a coisa não vai ser tão fácil, eles vão querer saber de tudo, vão vasculhar a casa e vão olhar os bicos dos peitos frios da minha amada debaixo de um lençol, gelada, roxa, com os lábios cerrados. ela não vai poder contar a eles que era infeliz demais ali, que tinha sonhos, que tinha poucos anos, que gostava da andar pelada em sua casa. ela deve agora estar satisfeita, talvez pense um pouco mais no nosso amor agora. não vai ter chance nem de se defender quando um deles, os policiais, perguntarem se estava louca. o marido assustado, com o cú virado pra dentro de tanto medo, vai dizer que não está surpreso, vai falar de médicos, vai chorar aliviado fechando a porta e acertando uns trocados. eu não ouço mais nada agora, e esse silêncio é o pior ruído desse lugar.

23.3.10

topa?

As minhas malas estão prontas, aprendi a dobrar camisetas sem amassar as estampas. Sempre amassei todas as estampas, todos os bilhetes enfiados nos bolsos e todos os ingressos de cinema daqueles filmes que a gente assiste da terceira fila, sétima poltrona da direita pra esquerda. As minhas mãos estão prontas pra engatilhar um aceno assim que eu avistar você do outro lado da avenida. Você e seu jeitão de menino católico, religiosamente penteado e cheio de medos e raiva e cheio de trinta e dois anos. Estamos de malas prontas. Eu sou a outra parte da história agora, eu sempre achei a outra parte a mais legal de qualquer história, mas não a parte ruim, você sabe, aquela que a gente fica só imaginando, antes do final. Decidi mascar chicletes com a mesma cara de quatorze anos e espinhas e paixões e delírios. Ela chegou numa boa hora, a tranquilidade. Essa senhora manca, exausta e bem humorada. As malas ficam aqui, comigo, com meus cadarços desamarrados e o maço de cigarros. Divido a grana do ônibus com você, quer? Divido o peso das malas e das brigas e a gente tenta desembarcar num lugar diferente de qualquer outro que a gente tenha imaginado, ou não, até aqui. Onze anos é um bocado de tempo, onze anos é tempo demais pra ficar longe. As preocupações estão bem arrumadas ao lado das calcinhas. Aquelas de mulher louca, de menina romântica, de amiga secreta, de vadia perdida, de prima do melhor amigo, de ex-namorada, de recepcionista esquisita. Estão todas com o cheiro das tuas gavetas invisíveis.
Podemos esperar a noite ficar bem preta e sair correndo sem ninguém perceber nosso riso infantil e esquizofrênico. Aposto uma corrida com você essa noite.
16 de março de 2010

na primeira vez em que te perdi

andei descalça por 19 quarteirões

meus pés não sangraram mais

que o meu coração

que com o tempo cultivou o dobro de calos

e a metade das bolhas

que aprendi a estourar delicadamente

com a ponta de um alfinete

o líquido que escorre

é o amor

impossível faze-lo caber ali novamente

ali cresce um calo

é preciso inventar outra bolha

para caber o amor

Luana Vignon

17.3.10

sabe o que é foda? eu tenho uma lembrança ruim que talvez nunca mais saia da minha cabeça, e eu odeio saber disso, ter essa lembrança, porque eu não pude (eu não quis) nem sofrer com isso. Toquei o barco, e tô quase me afogando. Ontem, quando liguei a cobrar eu estava dentro de uma nuvem, tava sem ar e com muita raiva, e eu ouvia risos e "olás!" e eu queria dizer, apenas, que eu não consigo manter a calma com certas lembranças, porque acho injusto sim, acho injusto isso ficar doendo aqui dentro e não poder gritar, porque eu não posso, entende? não pedi uma lembrança assim, nem essa raiva que voltou sem que eu pudesse segurar... que merda, que merda...
não dormi a noite inteira, desejei a cada minuto voltar no tempo e consertar umas coisas que estão espatifadas no chão da sala, ainda hoje.

2.3.10

trinta de março

olho daqui pra lá onde vejo moleques descalços
jogando bolinhas, de gude,
em cima do triângulo desenhado
com giz, de lousa,
e meninas que coçam a cabeça com pressa
para entender seus pequenos corpos
de onde virão
mães
como as que vejo apontando a direção
que não é a certa
e como tem mesmo que ser
e olho pra lá esperando finalmente encontrar
alguém mais interessante que eu
que talvez me diga porque sempre faltam estrelas no céu de março
em cima da minha janela e
diga "até amanhã!" mas que não precise voltar
amanhã
pra ser sincera nisso
e olho as bolas de vidro
girando naquele triângulo de giz e me fazendo pensar
em tantas coisas esquecidas guardadas numa lembrança empoeirada,
os moleques desistem do jogo por uma garrafa
de tubaína,
eu desisti por muito menos.

9.2.10

nota:

ensaiando um novo jeito de sofrer, estendo roupas íntimas no varal ás cinco da manhã. acendo um cigarro na hora do banho e misturo fumaça e vapor, revendo a mesma dificuldade de separar as coisas. ensaio á meia noite um telefone pra uma amiga, desisto e abro um livro que eu já li, dentro do livro uma fotografia e um cartão telefônico sem unidades, antes era ficha. fico olhando pro teto no escuro, olhando pra direção do teto que eu não vejo no escuro. eu choro, eu cuspo, eu penso em filmes e piadas tudo ao mesmo tempo. o meu telefone não toca, é quase um silêncio sepulcral. meu pescoço ainda tá doendo, o meu estômago ainda tá doendo. o meu coração ainda tá doendo também, mas não o músculo. escrevo uma carta ao meu avô paterno e desisto antes de assinar, algumas pessoas se vão. quase morro de calor ás três da tarde e penso em férias. aprendendo a cozinhar pra fiar mais tempo dentro da cozinha com a minha mãe. escrevendo poesia em guardanapo de lanchonete, equilibrando palito de dente na ponta do nariz.
escrevendo a lápis, só pra poder apagar depois.

5.2.10

estranhos.

Então a gente soma tudo isso e divide por dois. Ou fracionamos, enfiamos números primos na chave e passamos ao segundo problema. E se fosse só isso, fácil assim, era só a gente assumir nossa genialidade com a matemática e desistir do amor. Pronto, você me fez encucar com equações. Logo eu que nunca fui muito bom na matemática, e da física só lembro da professora que tinha uma bunda redonda, linda, que sufocava em vestidos de verão. Verão é muito perto das férias, lembro pouco da professora, menos ainda de você que saiu correndo do ponto de ônibus e embarcou num táxi. Os taxistas são quase íntimos, as vezes deixam a gente no pior lugar do mundo e "boa noite!" seguem a vida cobrando bandeira dois.
Eu queria ser bom em alguma coisa, como os caras que você costuma gostar. Caras que nunca te ligam antes do meio dia, caras com cheiro de calçada do centro, caras que topam qualquer coisa menos levar alguma delas a sério. Se você me quisesse como a esses caras eu até toparia, mas seria uma subtração e eu não entendo nada de matemática, como já te disse. Podíamos namorar em filosofia mas isso ia dar no saco. Você usava pijamas como os que usa agora? Acordava pelada no meio da noite, andando em círculos pelo quarto questionando datas no calendário, pensando em futuro, toalha molhada pendurada no box de vidro? Você já tinha trinta anos quando nasceu, sabia? As mulheres nascem assim. A minha mãe já nasceu assim. Ainda espio por debaixo do lençol pra ver se voltou. Se ainda gostaria que eu deixasse a luz acesa enquanto você joga a roupa por cima da poltrona. Eu queria ser um daqueles caras que você gosta só pra ir embora depois de gozar dentro do seu umbigo, como me contou uma vez e afirmou que foi a coisa mais absurda da sua vida. Porque eu não fui nem absurdo, nem magnífico, eu só te emprestei uns trocados pro táxi. E você não voltou mais.

1.2.10

Ela levantou-se devagar empurrando a cadeira cuidadosamente para trás. Se escondia num vestido justo de pano azul marinho. Estávamos calados ha algum tempo, ela mexia nos cabelos e ajeitava os peitos dentro do sutiã. Percebi que seu pescoço é comprido, e sua língua tão pretensiosa. Segurei seu braço e lembrei que não tinha dinheiro, o que não era nenhuma novidade pra ela ou pra qualquer outra pessoa que me conhecesse por pelo menos duas esquinas. Seus lábios vermelhos de batom crisparam, talvez de amor, e revirou a bolsa pequena que combinva com o vestido, e com todo o resto de sua vida, atrás de algum trocado. Jogou o dinheiro sobre a mesa enquanto tragava lentamente um gole do meu conhaque. Tudo passava do limite. Conferi a conta, o dinheiro, pedi outra dose enquanto ela ficava me olhando do alto tentando dizer alguma coisa ou me matar. Nunca disse que seria fácil encontrar alma dentro desse corpo. Senti uma constrangedora emoção quando uma moça entrou pela porta pequena e foi direto ao telefone perto do corredor nos fundos. Uma moça jovem, devia ter uns vinte e seis anos analisando sua cintura e sua pequena bunda redonda. Ela não olhou pra ninguém, não parecia estar atrasada pra um encontro, talvez não houvesse encontro algum. Levantei da minha cadeira e percebi que os olhos equilibrados sobre aquele vestido azul ainda estavam ali, não perceberam o que acabara de acontecer. Eu havia me apaixonado. Sorri e devolvi o troco, ofereci mais conhaque numa desesperada tentativa de dizer adeus. Mãos femininas sabem esbofetear com precisão científica. Acertam naquele lugar que a gente nunca lembra que existe, não é só um golpe físico. Nunca mais vamos nos ver depois disso, porque há também o orgulho e o cansaço, tem uma menina telefonando próximo ao corredor nos fundos. O amor da minha vida emoldurado por uma pequena bundinha redonda.

23.1.10

Isso

é uma ansia, uma coisa entalada na garganta que impossiblita o ar de entrar, de sair. Impedindo o sono culpando a falta de alguém. É um alívio ao mesmo tempo, uma droga de resignação estúpida pra desmanchar o castelo de cartas. São muitas moedas perdidas na máquina, e ainda não acertei aquela música.
Tem um cavalo parado no meu portão, os cavalos enxergam fantasmas, sabia?


13.12.09

Ontem presenciei uma cena muito bonita, daquelas que quando você tá encostado na parede fumando um último cigarro a única caoisa que você pensa é que está no lugar exato, extamente onde você deveria e gostaria de estar. Os meus amigos cantando Luiz Melodia e Cazuza, rindo das piadas que a gente mesmo inventa, comemorando o alívio das boas notícias, eu me sinto realmente feliz de conhecer essas pessoas e poder ficar ali recostada na parede cultivando uma tímida adimiração por essas pessoas. Ontem o Sergio apareceu. Gosto pra caralho do Sergio, e das histórias inacreditáveis que ele me conta, e das broncas que a gente fica trocando e dos cigarros que sempre acabam antes de irmos embora.
Alguém que deveria estar ali, naquele exato momento quando eu me lembrei do dia que dançamos na cozinha da casa da Luana, porque alguma coisa ali me lembrava os dias mais divertidos dos últimos anos, e me lembrei de tanta coisa boa que tive vontade de dar pausa nas minhas memórias, porque não tava conseguindo respirar direito. Deu uma puta saudade.
Cafézinho do Jarbas com a mulherada na cozinha da Silvia , planejamos chá de bebê, casamento, uma viagem pra praia, um almoço e tudo isso e o churrasco e crianças correndo e perdendo chinelos e comendo melancia. Reunião de meninas no quarto, com direito a segredinhos e incenso e histórias de salvamento.
Estamos todos indo bem de alguma maneira, né?
Fora a vontade de chegar em casa e abrir a porta da varanda e acender um cigarro com ele, comentar das luzes na consolação, de enfetes de natal, do fato de os erros nunca mais irem embora, da vontade de tomar a coca-cola mais gelada do mundo e depois deitar na parte mais confortável do colchão com um travesseiro com o seu cheiro, e dormir ali e acordar daquele jeito, sabe...

Hoje é a última viagem com a mudança, quero abrir espaços para acertos, juntar alguns cacos...

Se alguém souber o nome da música que não sai da minha cabeça, não me diga, quero continuar imaginando coisas e lugares e personagens do meu jeito.

Bom domingo pra todo mundo!

11.11.09

ponto.

Aprendi muito cedo que algumas pessoas nunca vão conseguir enxergar através do meu olhar. Depois percebi que isso muitas vezes é dificil até pra mim. Encontrei pessoa legais que depois tiraram a capa de chuva e no fundo nem era tão legais assim. Quis ser aquela que as pessoas percebem, que perguntam, e derrepente essa percepção se misturou as perguntas e essa nuvem cinza de enroscou em mim. Contei grandes histórias pra quem me ouvia sem cobrar finais felizes, pra quem ouvia porque gostava e apenas porque gostava de mim, aliás, e essas histórias viraram fantasmagóricas e tristes lembranças, navalhando sorrisos e lapidando respeito, me perdi num conto onde a bruxa sai a 200km por hora numa harley e atropela o príncipe, os súditos e toda sua personalidade, ela vira uma personagem escrota e morre de overdose num banheiro ecológico do acampamento de um festival de clássicos da mpb. Daí lembrei que gosto de escrever uns contos, que tenho livros de poesia no armário, que sei descascar uma laranja em espiral sem rasgar a casca, e respirei fundo. Vieram na cabeça muito momentos, gargalhadas que quase me tiraram todo o ar do pulmão, e eram tantas e tão melhores que noites que passaram e sequer arranharam a memória. E uma tira da Mafalda me fez passar o dia tranquilo, é melhor que anti-depressivo. Tive uma idéia, que virou um plano, agora vou dominar o mundo e ninguém vai acreditar quando eu contar. Porque também sei, e isso há muito, que dá pra misturar tudo aqui dentro sem enlouquecer. A pessoa que me deu o melhor presente do mundo (e aquele amor honesto) tem algumas mágoas no bolso, e no armário da cozinha, e entre os dedos dos pés. E eu tenho uma bolsa imensa cheia de retalhos de meses que passaram por mim rápido demais, e remorso não passa com neosaldina, nem com abraço passa caralho. E me telefonaram com uma notícia que não cabia dentro do aparelho telefônico, eu vou ter um sobrinho, vou ser tia. Uma coruja de olhos enormes que vai ficar babando sobre o berço, isso vai ser muito divertido. Meu irmão com os olhos cheios, com o coração acelerado e um indescritível e despudoradamente bonito sorriso na cara. Senti denovo aquele frio na barriga, aquela coisa boa de esperar por alguém que vai chegar pra te ver, ou não mas que você fica imaginando que podia ser assim. Senti saudade também, como não sentia desse jeito que dói. Senti raiva e raiva é tão pessoal que mais parece egoísmo pra algumas pessoas. Ouvi músicas lindas, show dos meus amigos. Tenho um amigo que é um super herói, com capa e tudo, e ele voa. Aprendi a falar mais baixo, a roer as unhas, a separar cada coisa e cada causo. Vi que algumas pessoas confundem convivência com conveniência, mas que não perceberem ou acham que assim fica mais fácil, ou acham mesmo é que ninguém percebe. Fui ao cinema, paguei meia entrada e perdi um truque, me diverti até doer a barriga. Desci a rua falando de planos e sonhos, fazendo gracinha, me vi há um ano quando eu ainda não tinha medo de encarar o espelho. Recuperei a vontade de mim mesma, a vontade de me enxergar nas tuas feições e acertar o meu passo com o teu na calçada.
Descobri que não é o externo que tem me feito mal, e isso foi a coisa mais triste do mundo quando eu passei em frente a uma loja de brinquedos e vi um par de patins na prateleira.

5.11.09

Porque eu tenho o tamanho de uma menina e as marcas de uma mulher. Porque meu cabelo tá quase sempre preso, e minha unhas roídas ou vermelhas, e meu olhar perdido na minha imaginação que nasceu antes, que inventou os meus passos e topou com alguns medos. Porque eu tenho metade da idade que eu queria ter nesse exato momento, e quando isso aqui dentro dói desse jeito eu mordo os lábios e grito por dentro, quando isso aqui dentro dói eu tento sufocar os ponteiros do relógio dentro dos meus bolsos. Porque as vezes eu acho que aprendi cedo demais essa coisa incrível que vem de fora, e as vezes tenho tanta falta de jeito e de equilíbrio. Porque o meu sorriso tem se apago muito rápido quando viro a esquina, porque as esquinas tem sido outras. Porque ter quebrado aquele vaso contra o muro de tantas lembranças me causa uma loucura incontrolável. Porque eu gosto tanto de discos velhos e roupas que ninguém mais usa e as pessoas que estavam lá riem de mim e isso é tão sensível e são poucos os que percebem, que entendem, que enxergam a própria cara numa sala de espelhos. Porque o caminho da sua casa fica bem no meio do caminho da minha, como a cicatriz que eu deixei quando saí daí, como tudo que ficou pelo meio do caminho da sua casa até a minha. Porque eu tenho feito coisa legais, tenho acertado mais, menos, tenho revisto os filmes que nem vão mais passar.