24.10.09
22.10.09
ela pegou o ônibus errado. ela pegou o ônibus errado e eu estava sentado na última poltrona, olhando pela janela embaçada algumas mentiras que caíam na pista ao lado. pagou com o dinheiro trocado, revirou o fundo da bolsa e riu envergonhada pro cobrador que se pudesse lamberia seus peitos, o que já fazia com os olhos. tirou a última moeda e se encolheu pra cruzar a catraca apressada. mirou todos os lugares vazios, encarou todas as pessoas que nem notavam que ela tinha uma verruga na ponta da orelha, perto do brinco de argola, bijouteria. sentou perto de mim, olhou o relógio no pulso e calculou um suspirou, meditou uns instantes com o olhar perdido em qualquer direção. algumas mulheres perdem o olhar e nunca mais encontram. senti o cheiro do seu cabelo, do seu pescoço, senti o cheiro da sua respiração ofegante, quase um grito de pavor, senti pena do vazio que habitou entre nós dois. ela me olhou e sorriu, mas logo já olhava outra vez pro relógio e pro corredor do ônibus. nesse exato momento me dei conta de que eu é quem estava no ônibus errado, mas eu sabia que era o ônibus certo no caminho dela. porque eu queria perguntar as horas e convidá-la pra comer cachorro quente antes de umas cervejas, e depois eu a levaria pra andar por aí comigo. ou não. porque haveríam as escolhas.
3.10.09
Despia-se em frente ao espelho religiosamente as sete, todos os dias. Tinha medo de perder algum detalhe novo dos seios à pubis. Tinha uma tatuagem nas costas, bem no meio, uma centopéia com uma bengala pra cada par das cem perninhas. Era uma tatuagem assustadoramente colorida, que deslizava até sua bunda redonda. Sua fantástica bunda redonda! Escondia feridas no couro cabeludo, escondia maconha na terceira gaveta do móvel mais indiscreto da casa como se sua mãe fosse chegar do trabalho a qualquer momento e aí, seria descoberta. Perdeu a mãe por conta de um resfriado, o médico estava doente e não pôde chegar a tempo quando a velha engasgou com uma azeitona que mergulhava na taça com a bebida. Guardava os dedos em caixas de fósforo, numeradas compulsivamente, porque invariavelmente acabava usando-os para apontar a direção errada ou pra afastar um pouco a cortina do quarto conferindo se aquele vizinho pervertido ainda espera por seus novos detalhes, religiosamente as sete.
28.9.09
fora de área
Já são quase vinte dias sem internet. E isso foi bom pra mim, de certo modo. O ano tá quase no fim, né? O melhor pior ano da minha vida, não precisa de explicações. Muita coisa aconteceu até aqui, não quero falar muito sobre elas agora. Estou com saudades de algumas pessoas que são realmente importantes, angústia fudida no meu peito. Mas fico tranquila porque fico sabendo que as coisas de algum jeito vão bem pra essas pessoas, e isso é maior e mais gostoso de pensar no que nas minhas angústias. Minha saúde agora tá entrando na linha, não que eu estivesse com algum problema mais sério com ela. Saudade de comprar melancia na feira de domingo, e um abacaxi (ou dois), mas não é só ir lá e comprar e voltar pra casa, porque tem tudo aquilo que acontecia antes e depois, e a tarde, lembra?
Esse fim de semana foi bem divertido. Ontem foi aniversário da Manu! Ontem o corinthians empatou com o são paulo e isso beneficiou o Palmeiras! Minha mãe me disse que está com saudades, e nem imagina o quanto eu também estou...
Há dias estou com uma música na cabeça, uma música que eu nem sei de quem é, nem sei se existe mesmo. Mas é uma música bem bonita, viu. Acho que é aquela música fora de ritmo que vamos cantar juntos daqui quinze ou vinte anos, você sabe disso, né?
Amanhã tem o último show da banda Saco de Ratos, lá no Café Aurora, e eu queria muito ir lá ver e ouvir aquele show que não me cansa (e todo mundo, inclusive você, sabe que não é só por isso, também...)
Talvez.
Segunda-feira, 28 de setembro, acho que vai chover antes das três da tarde.
21.9.09
Sabíamos. Desde o começo sabíamos que nunca mais seriamos os mesmos, nossas vidas funcionavam juntas, numa ordem desgovernada, as vezes confusa. Doía. Cada vez que ela arrumava suas coisas, cada vez que voltava trazendo de volta olhos inchados. Perdemos. Muito de nós dois, a individualidade tirou férias eternas, o meu corpo e o seu corpo transpiravam juntos, não dava pra não perceber mas era um contrato ilimitado esse nosso. Cansávamos. De todo o desprezo que insistíamos tentar confrontar, de toda a angústia que a ausência rara marcava, das minhas mãos frias em seus seios, dos teus seios frios cruzando a rua. Sonhamos. Com quintais, filhos, amantes, um assassino como naqueles filmes, um outro domingo, um outro amigo em comum contando segredos que nós dois inventávamos. Dormíamos. Dormíamos.
Pedi pra não abrir os olhos, era uma coisa ruim de se levar na memória, mas você não deu ouvidos, e foi caminhando naquela direção, e foi caminhando pra muito longe de onde eu pudesse cuidar de você. Por que fez isso? Minha linda, por que você fez isso?
Esquecemos. Você primeiro, de você mesma primeiro, e de todo o resto em tão pouco tempo (foi rápido demais, não foi?). Esqueci. De que não era só te abrir os olhos, não era só cercar os portões dos teus descaminhos, talvez eu deveria ter ido até lá e não sei o que faria, mas estaria mais perto daquela areia movediça e daquelas sombras esquisitas. Você se foi. Eu fui também. Nós tínhamos um plano, e esse contrato eterno de sermos um do outro (você é minha, ainda). Bebíamos. Muito mais do que aos outros incomodava, muito menos do que as nossas vidas suportavam. Amamos. Os dois, as unhas, carnes e seus cabelos finos presos nas minhas roupas, nas minhas costelas e seu Cheiro dentro de mim, inflando os pulmões, socos, beijos, sua bunda em tudo que faço, aquela cama/refúgio onde nossos personagens e algo muito, mesmo, bem próximo do que você me explicava sobre felicidade. Sua voz. Sua música, seus ruídos, suas unhas vermelhas roídas. Medo. De que você fosse mesmo a mulher mais linda do mundo (e eu absolutamente certo disso), de que você não voltasse, ou da minha própria partida. Raiva. Porque minhas atitudes sempre foram precedidas de nenhuma cautela, porque suas fantasias sempre foram as maiores vilãs do meu ciúme, medo da vontade insuportável de nunca sair de perto de qualquer lugar onde estivéssemos juntos. Razão. Por ter sido você aquela menina no ponto de ônibus, por ter sido eu o cara que te emprestou aquele livro. Lembranças... quando as coisas estão mais distantes, quando é a saudade aqui onde você TINHA que estar. Amor. Por cada vez que você tirou a roupa olhando dentro dos meus olhos, por cada segredo que me contou no meio da madrugada, por sua pele cobrindo minha vida, por minha vida abrindo espaço pra você, por você louca rindo e gritando no meio da rua a piada mais engraçada do mundo, que nós inventamos, por viagens que nunca fizemos, pela família que nunca conhecemos, por nosso livro mágico, por nossos cigarros queimando num cinzeiro no canto do bar, por nossa cerveja descendo gelada e nossas vozes cruzando a maior e mais inexplicável sensação que alguém pode sentir, por nossas ressacas, nossas brigas, nossas declarações despudoradas, nossas roupas molhadas de chuva, nossas gripes e nossa varanda.
Tempo. Que não me agrada, que não nos deixa escolhas apenas muitas e muitas melodias. Tristes melodias.
18.9.09
26.8.09
FELIZ ANIVERSÁRIO, DUDA!
Hoje a Duda faz aniversário. Hoje a Duda faz 2 anos! Hoje faz um ano que eu fui lá pra zona leste de metrô num sábado a noite pra comer bolo e ver os olhos do Sergio cheios de lágrima com aquele vídeo no telão. Lembro da carinha da Duda, resfriada, olhando pros pais, pros avós, pra todo mundo que tava ali em volta da mesa do bolo com uma carinha de choro e manha no colo da mãe, e o engraçado é que a família toda estava com a fisionomia parecida, cada um na sua manha, todos segurando aquele choro de alegria. Dia de festa, a primeira festa da vida dela, e agora ela já está fazendo 2 anos e tem cabelos dourados, lindos.
Saúde e sorte pequenina!
Feliz Aniversário!
21.8.09
Alguns amigos já escreveram hoje sobre a madrugada estranha de sexta-feira. Hoje não é dia 13, mas as bruxas já se anteciparam e estão por todos os lados deslizando em suas vassouras. Eu já cruzei com algumas delas, muitas delas, todas elas passaram por mim com o dedo médio esticado. Algumas moram em pensionatos, dentro das paredes e gritam a noite toda. Outras falam alto e as vezes conseguem tirar a gente do sério. Outras querem te agradar sufocantemente. Todas essas, bruxas. E quando resolvem voar todas juntas, a noite pode ficar blue pra caralho (né, Marina?). Copos estilhaçam por cima de nossas cabeças, mas o estrago maior vem com o tempo, aquele amigo que falou mais alto, que acusou o mundo e a si mesmo por tudo, aquele amigo que se expôs ao avesso, ao outro que deixou espaços demais entre um "pontapé" e aquele abraço. Algumas aparecem com coletes e pranchetas e multam a fumaça do nosso cigarro.
E a madrugada foi arrastando suas correntes e as bruxas rodopiavam insandecidas. Será que só sobre nossas cabeças?
E tudo foi ficando mais sereno, as pessoas começaram a falar, a dar risadas, os infames continuaram infames, os mais calados cantavam baixinho. A Fê chegou e me cantou uma música nova que ela tá fazendo, muito bacana. Daí a gente fez mais umas duas músicas que eu não vou lembrar e ganhamos algum prêmio por estarmos ali naquela hora. Ou por nossas letras bêbadas geniais!
Eu saí de casa pensando no caminho que eu fazia a pé do meu trabalho até a avenida paulista quase todo santo dia, a quatro pernas, dois sorrisos e aquilo que tem me feito mais falta. E eu no meio da noite escura que passava por mim...
E quando o Mario escreveu isso aqui "E eu espero que tudo realmente fique bem pra todos nós. Porque na verdade todos nós merecemos. Sabem porque? Porque todos nós somos gente boa. Não devemos julgar ninguém. Vamos simplesmente deitar nossas cabeças em nossos travesseiros e acreditar que apesar de sermos todos imperfeitos pra caralho, nós só queremos o melhor pra todos. Acho que é um jeito bom de ver as coisas." Acho que não se referiu apenas a essa tal madrugada estranha de sexta-feira.
E deixo aqui as palavras do meu Amigo Pierre "Da minha parte, preciso desses amigos para não afundar de vez. Sinto que muita vezes não consigo mais me manter na superfície, nessas horas dá uma vontade louca de desistir. Depois passa, tudo passa.Um brinde a todos esses Amigos que são minhas bóias. Saúde e Vida Longa."
20.8.09
Era só uma calcinha, ela disse limpando a boca com um lenço borrando o batom na frente do espelho. E calcinha é tudo igual, todas tem o mesmo cheiro e o tamanho e a cor e tem algumas com estampas e outras não, ela ia falando sem notar meu desapontamento, aquele lenço me cortava o coração.
Acordamos antes das onze, como de costume em todos os finais de semana, acordamos e ela já foi se enfiando debaixo do cobertor. Segurei seus cabelos, não era uma cena bruta, pedi que fôssemos tomar um café com leite em algum bar próximo. Você não quer? ela me enfiava aquele olhar de súplica de mulher, nuazinha, estiquei o braço até a cortina e escureci um pouco suas costas. Descemos ainda transpirando a madrugada anterior, a muitas madrugadas. Pedi um café com leite, pão com manteiga, ela preferiu café com conhaque e pão de queijo, mas o que tínhamos no bolso só deu pra dois cafés puros, voltamos pra casa.
A casa é um quarto que servia de depósito numa loja de produtos elétricos. O dono é um velho religioso, aparenta mais que sessenta anos, o que eu deduzo pelas rugas pois nunca perguntei. Nada de drogas e prostituas, foi tudo que ele me disse depois de me cobrar o primeiro mês. Primeiro um portãozinho estreito que dá pra um corredor estreito, comprido, depois uma escada em caracol, e meu lar. Ela veio pra cá depois de nos estapearmos num bar que agora nem me lembro ao certo qual foi, acordei e ela estava aqui com aquela calcinha e aquele cheiro. Nos casamos em frente a igreja numa noite louca de cigarros, me lembro de algumas drogas e muita bebida paga por alguém que descobriu isso com atraso. Eu aceito, eu disse, sim, ela respondeu. Na primeira briga depois do nosso casamento ela me aparece sem aquela calcinha que eu gosto tanto de vê-la usando, a sua calcinha sumiu, minha favorita, e o que ela me diz é que é só uma calcinha, essa diaba.
Tive uma alemãzinha que gostava de me preparar o jantar todas as noites, ela vinha com sacolas de supermercado, e suas fantasias, ela cozinhava como uma mãe cheia de temperos e sorrisos lançados pra mim, na poltrona, sempre sujo e mal humorado. Trazia comida e aquela bunda cheia de meus dedos. E eu comecei a esperar que viesse, as vezes eu tomava um banho e lavava os pratos da noite que passou, mas uma hora ela parou de vir, e nunca telefonou. Algumas pessoas não voltam, outras se vão.
Tenho uma mulher que perde calcinhas. Do está falando? limpando a boca com o lenço, não é nada, é o que eu vou lhe dizer beijando-lhe o pescoço pela última vez.
17.8.09
não é a cor da porta do seu armário que me incomoda. nem as chaves que você sempre esquece. nem me incomoda quando você repete aos gritos tudo aquilo, sobre aquilo, numa daquelas nossas brigas. é irremediável, mas não definitivo. não são as suas mãos cheias de dedos, isso nunca vai me incomodar. não são as horas que demoram a correr no relógio, nem a falta de assunto nos programas de tv. não são as crianças correndo na rua, bicicletas, patins. não é o futebol nem a fórmula 1. nem meus pais e suas trovoadas, nem a minha família enquadadrada num único porta retrato. não me incomoda ficar em pé num ônibus lotado, no metrô abafado, e as pessoas com pressa, e as pessoas sempre com tanta pressa que não veêm a vida passar. não são os clichês que me incomdam, você sabe disso.
nem a fila da padaria, mas a fila do banco entre os dias cinco e oito sim, me incomoda. não é o cara que olha desconfiado no corredor do supermercado, nem o outro cara que chega primeiro na melhor vaga do estacionamento desse supermercado. a conta no bar não incomoda, pelo menos não a mim, nem o tédio do garçom numa quarta-feira quase morta, pelo menos não pra mim.
não me incomoda o copo cheio, não me incomoda a mesa cheia dos amigos de sempre. nem o tédio, o inverno, o trânsito. não é o fato de que tudo pode dar errado, não é que tudo tenha que dar certo o tempo todo. não são gatos derrubando telhas, cachorros latindo, donas de casa exaustas, tensas, apaixonadas. nem minha mãe telefonando pra perguntar "tá tudo bem?". não é o maço quase vazio, não é o troco que sempre vem errado.
não são as pessoas que insistem em subir e descer escadas pelo lado esquerdo atrapalhando quem vem, não é a ignorância de algumas pessoas que encaram tudo de punhos cerrados, sempre, não. nem cartões de crédito, nem contas de água vencidas empurradas por debaixo da porta. não é o tempo que a água demora pra passar pelo filtro quando a gente coa o café.
não é o barulho do meu estômago vazio as quatro da manhã quando chego cambaleando e sorrindo sem motivos. não é a casa diferente, as roupas sempre as mesmas, a comida saudável que eu nunca como, não é o recente desejo de ter uma máquina de lavar.
não é a solidão que me incomoda, é a ausência daquilo que caiu e quebrou. não é o vazio dos bolsos, o que incomoda tá do lado de dentro, o que incomoda eu não consigo dizer, nem escrever, o que incomoda é exatamente isso, a covardia, minha.
11.8.09
quanto vale?
aquilo que você achou que era o melhor de si e deixou na chuva? aquilo que nenhum amigo seu jamais duvidou? aquilo atrás da cortina vermelha? aquilo que seus pais diziam que ia dar merda, quanto vale?
aquilo que você guardou entre os livros na estante? aquela última música... aquilo que a gente deixa entre uma despedida e outra?
13.7.09
7.7.09
Será que quando colocar o telefone no gancho isso vai passar?
Ela sempre me pareceu bem depois de nos despedirmos, ela sempre pareceu estar melhor que eu, na verdade.
Gosto daquelas sombras nas esquinas, do calafrio, da garrafa ainda cheia, do barulho do portão de ferro batendo nas minhas costas. Mas hoje não consigo sair de casa.
Gosto da noite assim como já gostei mais dela, e de cada pedaço daquelas carnes quentes que ela balança por aí dentro daqueles vestidos infernalmente excitantes. Ela é uma vadia e eu sempre soube, e gostei disso.
Agora ela tem uma casa, um cara bacana que conserta suas torneiras e eu arrisco apostar que ela finalmente comprou a tal torradeira.
Quando ela chegou em casa com aquele recorte do jornal mostrando aquele aparelho estúpido, e muito caro, e começou a falar e falar (gritos estrangulados e assustadoramente felizes) e queria me convencer com idéias de casamento, feira no domingo e essas coisas que ninguém vê em conto de fada, eu amassei o recorte e tirei o pau pra fora, os olhos dela umedeceram no exato momento que eu coloquei a mão no rosto dela, minha amantezinha loura, mas ela nunca foi mulher de ficar sofrendo. No outro dia ela levou todas as coisas dela, deixou apenas o que eu paguei, um lençol velho e uma xícara, trincada.
Mas será que se eu telefonar agora tudo aquilo vai emergir? As brigas, as porradas, o leite quente causando ânsia em minhas ressacas, será que tudo aquilo voltaria junto depois do telefone no gancho?
Porque eu quero que ela fique lá, com toda aquela felicidade que ela comprou, com toda aquela vida que ela plantou em vasinhos pequenos. Nenhuma mulher ficou aqui dentro tanto tempo quanto a minha amantezinha loura, nem quero que alguma delas fique, é que hoje é dia quinze, é meu aniversário, e dessa vez eu não queria dormir sozinho.
1.7.09
Caralho, já é julho. O ano já está pela metade, quase no fim na medida em que penso nas 365 coisas que eu pretendia fazer, uma de cada vez, uma por dia. Hoje acordei, quer dizer, amanheci no bar e quase não consigo manter meus olhos abertos no trampo. Dois pensamentos insistentes: aquele abacaxi docinho na geladeira, e o Ademir debaixo do cobertor comigo. Sabe aquela tal felicidade?
Trabalho numa oficina cultural em Taipas, caindo na Vila Brasilândia, as crianças daqui não tem play station 3, não vão ao cinema mais que duas vezes por ano (e tô sendo otimista!) nem sabem que Música, jonas brothers e funk são coisas totalmente diferentes. Essas crianças vem aqui todos os dias, algumas pela manhã, outras a tarde, elas brigam, xingam, correm e brincam, mas são menos crianças do que deveriam, mas quando eu chego aqui e os vejo reunidos discutindo a edição de um vídeo na aula de animação, ah cara, isso me deixa confiante nesse grãozinho de areia que eu tô ajudando a enfiar na vida delas. Agora ha pouco eles estavam cantando uma música do Mawaca, não conhecia, mas eles me fizeram gostar (confesso que na trigésima quinta repetição da mesma faixa eu fiquei mau humorada
Hoje é o primeiro dia do mês certo, quem está errada sou eu, na contra mão, mão furada.
23.6.09
8.6.09
28.5.09
Acordei cedo hoje, acordei e me estiquei no colchão que precisa de um tempo. Acordei.
Chovia, uma garoa fina me deu bom dia e riu-se de mim, eu de camiseta regata e calcinha em frente a porta de vidro pensando em coisas tão distantes que aquela garoa ria da minha cara descaradamente, e ela ria tão alto que dei as costas irritada. Pensei num banho quente, aquele longo banho quente, mas logo saí do box apressada com o horário e com a sensação de estar sempre tão atrasada. Mas eu tenho um emprego, e eu tenho um salário e isso as vezes não me parece o suficiente. Mas eu tinha um cheiro em volta de mim, um cheiro nas paredes e na fechadura e nas minhas coisas, em todas as minhas coisas, e eu sorri olhando novamente pra dança tola daquela garoa fina que descia pela avenida Ipiranga começando um dia, e eu comecei denovo, do começo. Deitei, levantei e me vesti, daí peguei um livro na estante, li um poema que me fez lembrar do aniversário da Duda e eu tentei começar o dia com aquele sorriso colado aqui, em mim, mas as coisas mudam tanto e tão depressa, e o tempo todo.
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