26.8.09

FELIZ ANIVERSÁRIO, DUDA!

(foto sequestrada do facebook do Sergio)


Hoje a Duda faz aniversário. Hoje a Duda faz 2 anos! Hoje faz um ano que eu fui lá pra zona leste de metrô num sábado a noite pra comer bolo e ver os olhos do Sergio cheios de lágrima com aquele vídeo no telão. Lembro da carinha da Duda, resfriada, olhando pros pais, pros avós, pra todo mundo que tava ali em volta da mesa do bolo com uma carinha de choro e manha no colo da mãe, e o engraçado é que a família toda estava com a fisionomia parecida, cada um na sua manha, todos segurando aquele choro de alegria. Dia de festa, a primeira festa da vida dela, e agora ela já está fazendo 2 anos e tem cabelos dourados, lindos.

Saúde e sorte pequenina!
Feliz Aniversário!

21.8.09

Alguns amigos já escreveram hoje sobre a madrugada estranha de sexta-feira. Hoje não é dia 13, mas as bruxas já se anteciparam e estão por todos os lados deslizando em suas vassouras. Eu já cruzei com algumas delas, muitas delas, todas elas passaram por mim com o dedo médio esticado. Algumas moram em pensionatos, dentro das paredes e gritam a noite toda. Outras falam alto e as vezes conseguem tirar a gente do sério. Outras querem te agradar sufocantemente. Todas essas, bruxas. E quando resolvem voar todas juntas, a noite pode ficar blue pra caralho (né, Marina?). Copos estilhaçam por cima de nossas cabeças, mas o estrago maior vem com o tempo, aquele amigo que falou mais alto, que acusou o mundo e a si mesmo por tudo, aquele amigo que se expôs ao avesso, ao outro que deixou espaços demais entre um "pontapé" e aquele abraço. Algumas aparecem com coletes e pranchetas e multam a fumaça do nosso cigarro.
E a madrugada foi arrastando suas correntes e as bruxas rodopiavam insandecidas. Será que só sobre nossas cabeças?
E tudo foi ficando mais sereno, as pessoas começaram a falar, a dar risadas, os infames continuaram infames, os mais calados cantavam baixinho. A Fê chegou e me cantou uma música nova que ela tá fazendo, muito bacana. Daí a gente fez mais umas duas músicas que eu não vou lembrar e ganhamos algum prêmio por estarmos ali naquela hora. Ou por nossas letras bêbadas geniais!
Eu saí de casa pensando no caminho que eu fazia a pé do meu trabalho até a avenida paulista quase todo santo dia, a quatro pernas, dois sorrisos e aquilo que tem me feito mais falta. E eu no meio da noite escura que passava por mim...
E quando o Mario escreveu isso aqui "E eu espero que tudo realmente fique bem pra todos nós. Porque na verdade todos nós merecemos. Sabem porque? Porque todos nós somos gente boa. Não devemos julgar ninguém. Vamos simplesmente deitar nossas cabeças em nossos travesseiros e acreditar que apesar de sermos todos imperfeitos pra caralho, nós só queremos o melhor pra todos. Acho que é um jeito bom de ver as coisas." Acho que não se referiu apenas a essa tal madrugada estranha de sexta-feira.
E deixo aqui as palavras do meu Amigo Pierre "Da minha parte, preciso desses amigos para não afundar de vez. Sinto que muita vezes não consigo mais me manter na superfície, nessas horas dá uma vontade louca de desistir. Depois passa, tudo passa.Um brinde a todos esses Amigos que são minhas bóias. Saúde e Vida Longa."

20.8.09

Era só uma calcinha, ela disse limpando a boca com um lenço borrando o batom na frente do espelho. E calcinha é tudo igual, todas tem o mesmo cheiro e o tamanho e a cor e tem algumas com estampas e outras não, ela ia falando sem notar meu desapontamento, aquele lenço me cortava o coração.
Acordamos antes das onze, como de costume em todos os finais de semana, acordamos e ela já foi se enfiando debaixo do cobertor. Segurei seus cabelos, não era uma cena bruta, pedi que fôssemos tomar um café com leite em algum bar próximo. Você não quer? ela me enfiava aquele olhar de súplica de mulher, nuazinha, estiquei o braço até a cortina e escureci um pouco suas costas. Descemos ainda transpirando a madrugada anterior, a muitas madrugadas. Pedi um café com leite, pão com manteiga, ela preferiu café com conhaque e pão de queijo, mas o que tínhamos no bolso só deu pra dois cafés puros, voltamos pra casa.
A casa é um quarto que servia de depósito numa loja de produtos elétricos. O dono é um velho religioso, aparenta mais que sessenta anos, o que eu deduzo pelas rugas pois nunca perguntei. Nada de drogas e prostituas, foi tudo que ele me disse depois de me cobrar o primeiro mês. Primeiro um portãozinho estreito que dá pra um corredor estreito, comprido, depois uma escada em caracol, e meu lar. Ela veio pra cá depois de nos estapearmos num bar que agora nem me lembro ao certo qual foi, acordei e ela estava aqui com aquela calcinha e aquele cheiro. Nos casamos em frente a igreja numa noite louca de cigarros, me lembro de algumas drogas e muita bebida paga por alguém que descobriu isso com atraso. Eu aceito, eu disse, sim, ela respondeu. Na primeira briga depois do nosso casamento ela me aparece sem aquela calcinha que eu gosto tanto de vê-la usando, a sua calcinha sumiu, minha favorita, e o que ela me diz é que é só uma calcinha, essa diaba.
Tive uma alemãzinha que gostava de me preparar o jantar todas as noites, ela vinha com sacolas de supermercado, e suas fantasias, ela cozinhava como uma mãe cheia de temperos e sorrisos lançados pra mim, na poltrona, sempre sujo e mal humorado. Trazia comida e aquela bunda cheia de meus dedos. E eu comecei a esperar que viesse, as vezes eu tomava um banho e lavava os pratos da noite que passou, mas uma hora ela parou de vir, e nunca telefonou. Algumas pessoas não voltam, outras se vão.
Tenho uma mulher que perde calcinhas. Do está falando? limpando a boca com o lenço, não é nada, é o que eu vou lhe dizer beijando-lhe o pescoço pela última vez.

17.8.09

não é a cor da porta do seu armário que me incomoda. nem as chaves que você sempre esquece. nem me incomoda quando você repete aos gritos tudo aquilo, sobre aquilo, numa daquelas nossas brigas. é irremediável, mas não definitivo. não são as suas mãos cheias de dedos, isso nunca vai me incomodar. não são as horas que demoram a correr no relógio, nem a falta de assunto nos programas de tv. não são as crianças correndo na rua, bicicletas, patins. não é o futebol nem a fórmula 1. nem meus pais e suas trovoadas, nem a minha família enquadadrada num único porta retrato. não me incomoda ficar em pé num ônibus lotado, no metrô abafado, e as pessoas com pressa, e as pessoas sempre com tanta pressa que não veêm a vida passar. não são os clichês que me incomdam, você sabe disso.
nem a fila da padaria, mas a fila do banco entre os dias cinco e oito sim, me incomoda. não é o cara que olha desconfiado no corredor do supermercado, nem o outro cara que chega primeiro na melhor vaga do estacionamento desse supermercado. a conta no bar não incomoda, pelo menos não a mim, nem o tédio do garçom numa quarta-feira quase morta, pelo menos não pra mim.
não me incomoda o copo cheio, não me incomoda a mesa cheia dos amigos de sempre. nem o tédio, o inverno, o trânsito. não é o fato de que tudo pode dar errado, não é que tudo tenha que dar certo o tempo todo. não são gatos derrubando telhas, cachorros latindo, donas de casa exaustas, tensas, apaixonadas. nem minha mãe telefonando pra perguntar "tá tudo bem?". não é o maço quase vazio, não é o troco que sempre vem errado.
não são as pessoas que insistem em subir e descer escadas pelo lado esquerdo atrapalhando quem vem, não é a ignorância de algumas pessoas que encaram tudo de punhos cerrados, sempre, não. nem cartões de crédito, nem contas de água vencidas empurradas por debaixo da porta. não é o tempo que a água demora pra passar pelo filtro quando a gente coa o café.
não é o barulho do meu estômago vazio as quatro da manhã quando chego cambaleando e sorrindo sem motivos. não é a casa diferente, as roupas sempre as mesmas, a comida saudável que eu nunca como, não é o recente desejo de ter uma máquina de lavar.
não é a solidão que me incomoda, é a ausência daquilo que caiu e quebrou. não é o vazio dos bolsos, o que incomoda tá do lado de dentro, o que incomoda eu não consigo dizer, nem escrever, o que incomoda é exatamente isso, a covardia, minha.

11.8.09

quanto vale?

aquilo que você achou que era o melhor de si e deixou na chuva? aquilo que nenhum amigo seu jamais duvidou? aquilo atrás da cortina vermelha? aquilo que seus pais diziam que ia dar merda, quanto vale?

aquilo que você guardou entre os livros na estante? aquela última música... aquilo que a gente deixa entre uma despedida e outra?

4.8.09

Tem um espantalho de calças cor de anil, lá no jardim.

13.7.09

Meu nariz, o Flavinho... e eu!

a foto é do Luiz Felipe

7.7.09

Será que quando colocar o telefone no gancho isso vai passar?
Ela sempre me pareceu bem depois de nos despedirmos, ela sempre pareceu estar melhor que eu, na verdade.
Gosto daquelas sombras nas esquinas, do calafrio, da garrafa ainda cheia, do barulho do portão de ferro batendo nas minhas costas. Mas hoje não consigo sair de casa.
Gosto da noite assim como já gostei mais dela, e de cada pedaço daquelas carnes quentes que ela balança por aí dentro daqueles vestidos infernalmente excitantes. Ela é uma vadia e eu sempre soube, e gostei disso.
Agora ela tem uma casa, um cara bacana que conserta suas torneiras e eu arrisco apostar que ela finalmente comprou a tal torradeira.
Quando ela chegou em casa com aquele recorte do jornal mostrando aquele aparelho estúpido, e muito caro, e começou a falar e falar (gritos estrangulados e assustadoramente felizes) e queria me convencer com idéias de casamento, feira no domingo e essas coisas que ninguém vê em conto de fada, eu amassei o recorte e tirei o pau pra fora, os olhos dela umedeceram no exato momento que eu coloquei a mão no rosto dela, minha amantezinha loura, mas ela nunca foi mulher de ficar sofrendo. No outro dia ela levou todas as coisas dela, deixou apenas o que eu paguei, um lençol velho e uma xícara, trincada.
Mas será que se eu telefonar agora tudo aquilo vai emergir? As brigas, as porradas, o leite quente causando ânsia em minhas ressacas, será que tudo aquilo voltaria junto depois do telefone no gancho?
Porque eu quero que ela fique lá, com toda aquela felicidade que ela comprou, com toda aquela vida que ela plantou em vasinhos pequenos. Nenhuma mulher ficou aqui dentro tanto tempo quanto a minha amantezinha loura, nem quero que alguma delas fique, é que hoje é dia quinze, é meu aniversário, e dessa vez eu não queria dormir sozinho.

1.7.09

Caralho, já é julho. O ano já está pela metade, quase no fim na medida em que penso nas 365 coisas que eu pretendia fazer, uma de cada vez, uma por dia. Hoje acordei, quer dizer, amanheci no bar e quase não consigo manter meus olhos abertos no trampo. Dois pensamentos insistentes: aquele abacaxi docinho na geladeira, e o Ademir debaixo do cobertor comigo. Sabe aquela tal felicidade?


Trabalho numa oficina cultural em Taipas, caindo na Vila Brasilândia, as crianças daqui não tem play station 3, não vão ao cinema mais que duas vezes por ano (e tô sendo otimista!) nem sabem que Música, jonas brothers e funk são coisas totalmente diferentes. Essas crianças vem aqui todos os dias, algumas pela manhã, outras a tarde, elas brigam, xingam, correm e brincam, mas são menos crianças do que deveriam, mas quando eu chego aqui e os vejo reunidos discutindo a edição de um vídeo na aula de animação, ah cara, isso me deixa confiante nesse grãozinho de areia que eu tô ajudando a enfiar na vida delas. Agora ha pouco eles estavam cantando uma música do Mawaca, não conhecia, mas eles me fizeram gostar (confesso que na trigésima quinta repetição da mesma faixa eu fiquei mau humorada


Hoje é o primeiro dia do mês certo, quem está errada sou eu, na contra mão, mão furada.

23.6.09

Ticas

Vignon's Home

(falta a Carola, a Kátia e a Renata que tá tirando a foto)

16.6.09

HOJE tem rock'n roll em São Paulo



foto de Luis Felipe 'Ogro'



Saco de Ratos no The Wall Café
Rua 13 de maio, 152 - Bixiga
Hoje, terça, 22:30 hs


R$ 5 pra entrar
e chopp custa $2

8.6.09

o amor é a única coisa, eternamente nova
o tempo passa, e ele continua
botando a gente a prova

Meu Bem,
quando eu disser que te amo...
diga Me ama também.



Renato Fernandes
Receio que perdi o melhor que eu tinha daquilo que tínhamos.

28.5.09

Acordei cedo hoje, acordei e me estiquei no colchão que precisa de um tempo. Acordei.
Chovia, uma garoa fina me deu bom dia e riu-se de mim, eu de camiseta regata e calcinha em frente a porta de vidro pensando em coisas tão distantes que aquela garoa ria da minha cara descaradamente, e ela ria tão alto que dei as costas irritada. Pensei num banho quente, aquele longo banho quente, mas logo saí do box apressada com o horário e com a sensação de estar sempre tão atrasada. Mas eu tenho um emprego, e eu tenho um salário e isso as vezes não me parece o suficiente. Mas eu tinha um cheiro em volta de mim, um cheiro nas paredes e na fechadura e nas minhas coisas, em todas as minhas coisas, e eu sorri olhando novamente pra dança tola daquela garoa fina que descia pela avenida Ipiranga começando um dia, e eu comecei denovo, do começo. Deitei, levantei e me vesti, daí peguei um livro na estante, li um poema que me fez lembrar do aniversário da Duda e eu tentei começar o dia com aquele sorriso colado aqui, em mim, mas as coisas mudam tanto e tão depressa, e o tempo todo.

22.5.09

Pra começar a (próxima) semana:



Ademir Muniz dá a letra:


Na segunda-feira, 25, às 22h, Márcio Américo apresenta seu show de stand up no Centro Cultural Rio Verde.
Ele e os atores Aramyz e Márcio Reiff subirão ao palco com a Comédia On The Rock - Stand Up pra Rir e Pensar.Apareçam.


E deixem as crianças em casa.

(mais aqui)






E não me digam que há maneira melhor de se começar a semana.
Quem ainda não viu precisa desmarcar com urgência qualquer jantar em família, quem já viu sabe do que tô falando. Imperdível!

30.4.09

Jorge Luís Borges

Uma Oração
Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.
Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

29.4.09

Algumas coisas viram moda, é o que dizem(?). Músicas, filmes, livros, até paixão tá virando tendência. Bicho, é um tal de ser eclético.
Eu acredito que algumas coisas viram "aquelas coisas dos outros". Eu gosto e também deixo de gostar de um monte de coisas, mas é por minha conta e risco e tem um monte de gente que deve me achar bem estranha.
Sempre me incomodou a palavra "estranha", não sei explicar como foi que isso começou, eu mesma uso muito dela, uma vez por dia pelo menos. O que me incomoda é me referir a alguém assim, o que faço às vezes também. Não gosto quando me chamam de estranha, mesmo se for na brincadeira, eu disfarço, mas isso me incomoda e eu não sei mesmo explicar porque. Mas não é de mim nem de como me sinto com certos apontamentos agora.
Eu vi uma garota e um livro do Jack London, ela sentada ao meu lado no vagão do metrô, eu tava com sono e pensava num café quente mas quando eu reparei o título na capa do livro eu não consegui mais desviar minha atenção daquela moça. Não me lembro da aparência dela, lembro das unhas com esmalte quase vinho, ela tinha um anel no polegar e lia "O lobo do mar". Não, ela folheava o livro, assim como quem vira páginas de um livro com receitas de bolos, escolhendo o tipo mais saboroso, o recheio mais saboroso, a cobertura mais saborosa. Página por página virando a esmo sem pausa.
Ela podia estar procurando alguma anotação, talvez quisesse reler aquele capítulo que mais gostou. Talvez só estivesse admirando as páginas, por que não?
Página por página virando acompanhadas por meus olhos agora já despertos, e um tanto angustiados, como são pela manhã.
Quando eu li esse livro me deparei com uma leitura fantástica, conheci ali um escritor que é hoje um dos meus preferidos, o conflito naquela embarcação - a Ghost - me tomaram de uma emoção e excitação difícil de explanar. Outra noite um amigo me disse que estava lendo um outro livro do London, não lembro agora qual era, e quase com a mesma emoção que eu acompanha as mãos daquela moça virando as páginas eu falava pra ele sobre minhas impressões com esse livro.
Ela percebeu que eu a olhava curiosamente e desprendeu um sorriso, e eu lhe disse "eu adoro esse livro!" no que ela fuzilou "um amigo esqueceu na minha casa, mas eu não li não, não gosto desses livros antigos, são muito parados pra mim, tô lendo aquele livro da Sônia Abrão, sabe qual é?"
O metrô descarrilhou e todos os senhores passageiros foram soterrados abaixo da avenida São João, inclusive eu e a Sônia Abrão. Final feliz pro Lobo Larsen*.
Claro que eu disse "ah, eu sei" porque a conversa findava ali, sem nenhuma explicação sobre que tal livro essencial deva ser esse, o que a moça tá lendo.
O amigo dessa moça tem sorte, pois vai receber de volta seu livro cuidadosamente intocável. Essa moça que eu não sei o nome e nada mais que a cor do seu esmalte, não vai mesmo gostar daquele livro, porque não dá pra encarar essa briga sem se machucar, pelo menos um pouco. É uma pena trazer no bolso certas afirmações.
Eu sei, tô chutando cachorro morto aqui, mas é que me falta ar em alguns locais, e isso tem sido bem estranho. Tô trombando pessoas bem Estranhas, e não tem sido incômodo chamá-las assim.



*Lobo Larsen
é um personagem do livro O Lobo do Mar, do Jack London

17.4.09

interurbano

-Vai lá no Alves e diz que eu quero falar com a Regina, quero falar com ela agora.
Mas toma cuidado com ele, corno é traiçoeiro. Se ele concordar de primeira vai embora e deixa quieto, ele pode estar tramando alguma coisa pra gente, é, você tá metida nisso agora também.
Se ele ficar preocupado você aproveita o nervosismo e diz que eu tô com umas fotos aqui, ele vai perguntar que fotos e você diz que não interessa e manda ele chamar logo a Regina.
Eu sei que não vai ser fácil, mas eu não posso fazer tudo por você, vai lá e faz sua parte que é a mais fácil. Se alguém tá correndo risco aqui sou eu. Deixei uma mala na porta da sua casa, é pra botar as coisas dela, isso, tudo, não vamos mais voltar naquele lugar.
O Alves é gente boa mas uma coisa não tem nada a ver com a outra, a Regina nunca gostou de todo aquele luxo. Uma vez eu disse que ela teria vida de princesa comigo, foi quando ela foi embora. Não me faça perguntas, você tá querendo me fuzilar, é? Olha aqui, você me deve esse favor, você me deve muito e eu não sou de cobrar, você sabe, mas agora vai lá e acabamos de uma vez com isso.
Medo? Medo daquele corno? Eu acho é que você tá querendo pular fora, isso, abandonar nossos planos. Nosso sim senhora, agora vai que a gente tá perdendo muito tempo. Espera, repassa tudo que eu te falei... certo. Diz também que eu sinto muito por ter que fazer isso, mas eu não negaria um pedido daquela mulher, sim, diga que foi ela quem pediu pra que eu a tirasse de lá, não importa, ela não precisa saber que você disse isso porra. E não esquece de levar alguma coisa pra deixar a boca dela bem fechada.

30.3.09

33!

pro Ademir Muniz,
com amor!


25.3.09

Quando meus pais decidiram me batizar (já cometendo mais um erro), escolheram por mim padrinhos, padres, convidados e essa coisa de religião. Meu pai nunca foi católico, descobri isso depois, minha mãe tinha mais tolerancia com igrejas, mas ela era kardecista, o meu pai já foi muitas coisas, minha mãe sempre respondia que era católica quando alguém perguntava, ela me disse que se dissesse que era espírita as pessoas fariam mil especulações e julgamentos, se dissesse kardecista ninguém saberia do que estava falando e fariam mais perguntas, e sendo católica era mais fácil ficar invisível em certas conversas. Mas eu falava do batismo, né? Eu não me lembro de nada, nem de quando tudo isso foi acertado, eles me carregaram até a bacia e molharam minha cabeça e disseram algumas coisas e pronto, agora eu não teria mais pesadelos. Foi o que disseram lá, né?
Meus avós paternos foram meus padrinhos, minha avó já faleceu e meu avô casou-se novamente e tem uma filha de cinco anos que ele já deve ter batizado também, meus pais são os mesmos de antes e acho que todos já esqueceram da farra da água na bacia, né?
Com 11 anos eu frequentava as missas de domingo, todo domingo sem faltar em nenhum, eu ia sozinha, logo de manhãzinha, eu gostava sim, e ainda me livrava da "faxina geral" que meu pai impunha a nós, filhos, logo depois do pesca & cia no canal 5.
Eu me inscrevi no catecismo, dois anos na salinha dos fundos da paróquia, aos sábados. Quando faltava 1 mês pra minha primeira comunhão o padre, Cícero, nos pediu os atestados de batismo, levei o meu dentro de uma envelope usado todo rabiscado com continhas e recados pra alguém retornar uma ligação, entreguei pra ele o 'meu batismo' e saí da sala (era uma salinha pequena com cheiro de parafina derretida). Ele mandou me chamar, entrei na sala resmungando pra mim mesma aquele fedor, ele esticou o meu batismo e disse com a maior naturalidade do mundo "isso não vale, não vai poder comungar, vai ter que refazer tudo" e eu não entendi o que aquilo significava e arrisquei infantilmente um "por que?" daí ele (não) me explicou que eu tinha sido batizada em uma igreja católica apostólica brasileira, e meu batismo não servia ali, igreja católica apostólica romana, teriam que me re-batizar. Peguei de volta meu documento da água na bacia e fiz questão de pedir meu envelope de volta. Dali mesmo eu fui pra casa, confesso que a princípio um tanto chateada com a notícia. Daí fiquei pensando no que ele disse e fiquei triste com o fato de ter que substituir minha madrinha, a minha avó, já falecida, e isso pra mim era inconcebível, escolher alguém pra substituí-la só porque eles me obrigavam a isso.
Abandonei a catequese duas semanas antes da "formatura", no meu último dia eu me confessei com o padre Cícero e na saida ele perguntou se eu tinha resolvido minha situação (ele falou assim mesmo, situação) e eu balancei a cabeça afirmativamente, e essa foi a primeira mentira depois da primeira (e única) confissão.
Foi quando comecei a questionar a igreja, foi quando comecei a enxergar aquela coisa com uma pitada antipatia.
Porra, eu tinha 11 anos e uma avó-madrinha morta, não tiveram nem a decência de me explicar isso de um jeito menos duro. E ainda tentaram uma lavagem cerebral discreta, terrorismo psicológico que não colou "porque aos olhos Dele isso não passa desapercebido, filha" e blábláblá...

Hoje eu li no blog da Luana algo que me fez lembrar disso, e pensar nessas merdas que estão aí decarrilhando a igreja católica apostólica romana ladeira a baixo.
Creio (como católica apostólica brasileira, e Palmeirense!) que alguns deles estão ferrados, porque já me disseram que pra Ele nada passa desapercebido,né?