29.4.08



"dia 05 de Maio os Poetas vão à Galeria


Ano passado fizemos esse encontro na Coletivo Galeria, em Pinheiros, São Paulo. Desconcertante, em todos os sentidos plenos e absolutos da palavra. A poesia jorrou, letras e músicas, poetas e músicos, cerveja e vinho. A energia que palpitava nessa noite arrebentaria uma usina hidrelétrica. Foi um dos momentos mais especiais que tive na vida.


Este ano a poesia retorna à galeria. E tem tudo para repetir o mesmo efeito. Marcelo Montenegro, Mário Bortolotto, Pierre Masato, Fabiana Faleiros, Paula Klaus, Sérgio Mello, Ricardo Carlaccio, Fábio Brum, jam e pocket-show do 'Saco de Ratos Blues', já estão confirmados.


Poetas na Galeria."




28.4.08


Com o tempo as coisas tomam forma e parecem fazer, enfim, algum sentido. Algumas conversam já não serão necessárias e outras serão então fundamentais. Como aquilo tudo que você sempre me disse e eu sempre discordei. Com o tempo a vista fica mais cansada e é incrível como só aí fica mais fácil enxergar aquelas coisas que realmente importam. Dá pra pedir desculpa aqui e ali e dormir em paz assim, o que não é um investimento dos mais prósperos. Com o tempo fica mais difícil cultivar aquela raiva dos nossos pais. Com o tempo a gente acaba aprendendo que tipo de amigo cabe na vida da gente. Estes são pra sempre. Nossos filmes, nossas músicas, nossos álbuns de fotografia amarelada, tudo isso com o tempo continua na nossa estante e nunca perdem o brilho, o sentido e o carinho. O cachorro abanando o rabo do outro lado do portão, as crianças da vizinhança correndo de um lado pro outro, como quando era eu que estava ali. Com o tempo as dores dão lugar as lembranças que dão lugar a saudade. Com o tempo ficamos cada vez mais jovens e menos despreocupados. Com o tempo talvez você entenda que bastava termos esperado mais tempo e talvez tivesse dado certo. Com o tempo pode ser que eu consiga acertar nas palavras. Com o tempo talvez...

24.4.08

Escuta, preciso da sua ajuda, mas pára de dedilhar os dedos nessa mesa de madeira. Vou repetir a estória do começo. Ela disse pra eu contar às crianças uma história de Natal e eu não conhecia nenhuma então contei da vez que meu pai queimou o cú tentando montar uma lareira falsa na casa da minha avó. Daí as crianças começaram a rir e pararam e perguntaram o que é cú. E eu contei, claro, toda sinceridade com as crianças. Um menino, o maiorzinho dos que estavam sentados no chão me ouvindo, disse que a mãe dele sempre manda o pai dele, que mora noutra cidade, tomar no cú quando conversam ao telefone. Acredita que a mãe dele disse que era uma forma dos adultos dizerem "tá tudo certo então". Eu disse, sua mãe é uma cretina menino. Agora escuta, eles me denunciaram e deu até polícia. Porque aquelas crianças nem eram tão crianças e não tenho culpa por não saber os nomes das renas e nem acreditar que elas voam. Quem mandou meu pai queimar o cú na fogueira? E... pára com esses dedos, não percee que tá aumentando meu nervosismo? Tô falando rápido com as palavras correndo da minha boca. Mas antes da polícia eu tentei fugir do assunto e deixei as histórias de lado. Tentei um jogo e distribuí as cartas do baralho que sempre carrego no bolso entre eles, é, as crianças. E foi tão bacana. Sério, eles pegam rápido. As apostas com balas e chicletes eram pra dar mais animação na brincadeira. Disseram que o vício começa assim. Bando de gente estúpida, os adultos da casa. As meninas até arriscavam de um charminho pra enganar as jogadas dos meninos. Eu fiquei olhando pra eles com emoção. Ei, será que não pode ficar só olhando pra mim enquanto falo, sem fazer gestos nem revirando esse seu olho? Daí, e isso ainda foi antes da polícia, ensinei uns passos de dança que eles jamais vão esquecer. Eu avisei que não tinha jeito para aquilo, ninguém quis me dar ouvidos e agora tô tentando te dizer que preciso passar a noite aqui. Porque falaram até de pedofilia. Puta que pariu, não menti não, aquilo aconteceu mesmo com o meu pai. E achei bem feito porque eu queria ter ido passar as férias na casa de praia do tio Joca, que me deixava bebericar suas bebidas. Amanhã eu tento pensar em algo original pra desistirem de mim. No final vão ver que ensinei coisas valiosas pra vida daquela garotada. Que vão descobrir cedo ou tarde que quando alguém manda a gente tomar no cú é como o primeiro soco na cara em uma briga, né não? Tá tudo certo, eu durmo aqui só por essa noite. Se você não se importar, claro!

23.4.08

"O que muita gente não entende é que a ausência de dor (ou confusão) não significa alegria. O fato de não estar fodida, sem grana, abandonada, arrependida, não me torna uma pessoa feliz. Já não disseram por aí que a felicidade é aquele espaço entre uma tristeza e outra?" - Luana Vignon
Eu disse que não me sentaria ao lado dela no ônibus. Voltávamos do colégio e ela vinh outra vez com aquela conversa que tinha algo a me dizer. Não, ela não tinha e não deveria. Não queria que chorasse, tínhamos uma partida importante daquele jogo de baralho que irmão do Doca ensinou pra gente, ela não podia ficar com a gente lá no fundo do ônibus (os moleques já tinham deizado isso bem claro). Flávia era o nome dela. Vestia uma saia que lhe cobria os joelhos e sua blusa era igual aminha pois sempre nos encontrávamos no intervalo de vestir e despir o uniforme. Mas aqueles bilhetes e aquele sorriso eternamente terno me confundiam. Decididamente eu não nme sentaria a seu lado naquele ônibus e disse do mesmo jeito que faria com qualquer um daqueles moleques lá no fundo. Não entendi nada, ela me olhou com raiva e chorava sentidamente e todos riam da garota. Ganhei as três primeiras partidas até que o ônibus parou na frente da minha casa. Há dezessete anos não toco mais nas cartas do meu baralho.
Frequento lugares silenciosos onde o ruído de uma garrafa estilhaçando contra um balcão de maciça madeira pode ser o mais agradável aos seus ouvidos depois um dia inteiro entre pessoas e vidas. São esses os meus lugares favoritos.
Com o passar do tempo desaprendi a conversar com as mulheres. Que são cheias de sentimentos que não acredito e não possuo. Mas não me sinto um homem solitário. Não passei ileso tampouco tenho orgulho do que ficou, mas a tristeza nunca foi minha inimiga, assim como a dor. As mulheres precisam de homens que queiram e saibam (não nescessariamente nessa ordem) cuidar delas, não eu. Gosto de ficar olhando o trato do garçom com os copos, aquilo é bonito de se ver, aquilo é mais bonito que qualquer demonstração de afeto e cumplicidade.

Outra noite eu estava decidindo entre o caminho de casa e mais uma dose, uma moça caminhou até mim e pediu um cigarro. Alcancei sem muito entusiasmo e lhe ofereci meu isqueiro. não nos olhamos. Senti seu perfume que entrou pelo meu nariz tão rápido quanto seus passos em direção à porta e à rua. Deixei o copo pra noite seguinte. Na rua o de costume, carros e pessoas, um cachorro rasgndo um saco de lixo que ajudei a arrastar até o outro lado em cima da calçada.

Poucos passos já no meio da rua o desenho de uma sombra começava a surgir debaixo da luz do poste. Não seria um assalto ou pedinte disso eu tinha quase certeza. A dona daquele perfume estava agora me encarando e eu sequer tinha me virado. Mas eu sei reconhecer sombras. Ela sorria com a palma da mão na testa como querendo se convencer de alguma coisa. Quando abaixou a mão e descobriu o rosto pude ver que Flávia ainda mantinha os traços mais engraçados que todas as outras garotas. Mas agora não estava diante da menina chorona, foi só um breve instante, ali eu via uma mulher enorme. Seios redondos e sua cintura desenhava uma peça de porcelana daquelas mais caras. Pernas compridas que iam até onde queriam de certo. Nem precisamos nos reapresentar, ora essa, eu sabia mais daquela garota que qualquer um. Ela disse que já tinha me visto entrar ali e resolveu se aproximar pra ver se era o mesmo moleque do ônibus. Nossa conversa não durou mais que rápidos minutos, do outro lado da rua o cachorro rasgava o saco de lixo e um cara fisicamente parecido comigo atentava da nossa conversa. É como se eu tivesse algo a dizer enquanto ela se afastava mas como aconteceu naquele dia antes da minha última partida eu me virei e fui embora. Acho que devia ter perguntado o que é que ela queria me contar naquele mesmo dia. Mas agora era eu que caminhava pra outra direção sem nenhum desejo realizado. E ela só veio até mim pra que todos pudessem rir dessa vez do moleque que eu continuava sendo. Podia ter dito apenas que deixássemos pra depois do jogo mas eu antes gritei como fazem os meninos em situações que acreditam ser de risco. Hoje é mais fácil entender o que se passou dentro da gente aos treze anos. Só não é a mesma coisa virar as costas, porque eu até queria ter continuado aquela conversa e sabido o que aqueles bilhetes deixaram pra trás.
Ao contrário do que tenho dito e feito perante minha vida, não que isso seja algo muito animador, ela continua a estender lençóis no varal. Acho, e sei que isso é algo que não vale muita coisa, que continua linda debaixo de todos esses anos. A mulher mais bonita da rua fazia os meninos chorarem durante a noite. Mas sozinhos, engolindo soluços e pedindo a algum deus que o sol viesse logo trazido por ela. Os meninos cresceram e hoje sabem que ela não era muito mais

18.4.08

Um ótimo fim de semana à todos!

Não consigo respirar. Ando em círculos e de vez em quando vou até o outro lado verificar se está tudo bem. Está! O problema todo acontece aqui, dentro. Sei que eles vão chegar a qualquer momento, os demônios, tenho que me vestir e esperar com o sorriso bem desenhado no rosto. Algo entalou na minha garganta há muito tempo. Tenho um pára-quedas que visto por quem pisa no chão é colorido. Mas daqui só vejo meu corpo em decomposição. Por conta desse sentimento que é mais dono de mim do que deveria.
Não sei montar à cavalo. Tirei nota sete na prova de geografia da sexta série e até hoje não acredito naquele professor. Porque alguma coisa lá na região norte do país não entrou na minha cabeça. Hoje faço sete mil quatrocentos e nove dias de vida, é algo a ser comemorado. Os noticiários me entristecem, tudo aquilo acontecendo do outro lado da rua, posso enxergar debruçada nessa imensa janela de vidro. E vejo borboletas coloridas que batem suas asas leves afim de me seduzir. Sacanagem o que fizeram comigo. Me botaram um capuz em formato de cone e fiquei lá no canto da parede, imóvel, de costas. Montar à cavalo... seria mesmo uma coisa das mais excitantes.

16.4.08

um cara precisa ser mais triste

Que mal há em preferir a perversão que rezas a deuses que só fodem com meus dias? Pergunto a ela antes de ouvir o barulho da porta estrondeando e quase arrebentando o batente. Uma briga quando termina é sempre motivo pra que comece outra. É estúpido tentar explicar qualquer coisa antes ou depois da porta batendo.

Ela não tem culpa. Só disse que sou um canalha. Eu disse "veja você que é apenas o uso desviado do normal, perversão é palavra nova, dessa gente moderna". Quis dizer-me algo e calou sua cólera num gole bem servido da minha bebida. As mulheres ficam mais bonitas quando bêbadas, porque se deixam ser exatamente como são. Isso não é questão de usar máscara, nenhum homem vai levar uma fulana muito a sério se ela topar chupar seu pau antes de duas ou três doses. Puro orgulho masculino, saca?

Ser um homem triste me fez mais feliz. Como é bom não ter ninguém me esperando pro jantar, ou pra fazer compras naquele supermercado cheio de corredores e fileiras e operadoras de caixa com metade d minha idade. Fico mirando meu olhar de soslaio pras paredes que são as mais agradáveis companhias. Digo se estou deprimido e elas não se oferecem pra puxar outra cadeira, digo que não tenho saco pros noticiários e elas não me sugerem o filme do momento, digo que estou faminto e não se movem pra me preparar algo com pão e queijo. Não se movem pra nada, mas ficam ali me observando com a ternura que só uma parede pode ter. Porque as pessoas falam demais, e sempre sabem demais também. Preciso apenas deste silêncio e da minha consciência pesada pra me importunar. A mulher não entende que essa é a forma certa de amar. Deixando a pessoa em paz. Sem encher o saco com latas de ervilha em promoção nem com o casamento de terceiros. Esse negócio de comparação pode ser muito perigoso. Você pode descobrir, ou constatar, que você é mesmo muito pior do que julga. E isso vai te custar um bocado, porque ela vai querer sempre mais de você.

Cumplicidade só nos lugares mais imundos que frequento. Lá não importa se me alegro assistindo o programa que vulgariza a situação daquelas pessoas magras nos países mais pobres. Cada um acredita na cruz que escolheu carregar. O que funciona mesmo é o hedonismo. Que segundo antigos sistemas filosóficos é o único fim da vida.

Caminho a esmo por quaisquer lugares. Sempre sozinho, nem sempre sou a melhor companhia. Escolho quando quero dormir, o sono também não gosta da minha companhia. Nenhuma suportaria isso, de perambular ao meu lado, seria um séquito e já não acho essas coisas tão suportáveis.

Não me comparam àquele sujeito ruidoso que senta na sua mesa já no fim da noite pra contar um caso sobre um caso qualquer. Não me comparam a nenhum desses caras. Só as mulheres gostam desse negócio de comparação, é uma disputa infindável entre egos, bolsas e esmalte. Esse último muitas vezes consegue me dobrar.

Quando fiz meu décimo terceiro aniversário o sol brilhava mais em cima da minha casa do que em qualquer outra daquela rua de paralelepípedos. Eu ainda pedia pro tal papai do céu que guardasse meu sono, do jeito que meu pai tinha ensinado. Igualzinho. Mas foi esse mesmo cara, segundo minha mãe e as outras pessoas vestidas de preto, que o tirou de mim antes de eu mostrar que já não caía mais da bicicleta. Nunca mais juntei as mãos, e jurei pra esse cara que não precisava de mais ninguém. Por isso digo que ser triste é o que me faz um sujeito feliz. Minhas ambições não ultrapassam a curva da esquina, nem vão além de um umbigo cheio de batom e esmalte. Prefiro ser o cara que arruma brigas, mesmo você me flagrando na noite com a camisa úmida perdido num olhar tímido que fere a carne de alguém que queria apenas flagrar a ternura gélida das paredes.

[repostando]

14.4.08

NÃO, NÃO e NÃO. Eu tenho dito que preciso, que quero, que me esqueci e que sinto muito. mas agora digo NÃO, é como dizer a todos eles que não vou ficar com olheiras e nem vou ficar "mais boazinha". Eu digo NÃO, que NÃO gosto, que NÃO me importo, que NÃO fará falta. Eles sabem que alguma coisa mudou nessas 48 horas, e sabem que eu vou me agarrar a isso, que sou eu e que funciona somente longe dali. NÃO, a culpa não é de ninguém, parem de chorar, por favor.

NÃO consigo sentir muita coisa longe da raiva, que me trouxe um caminhão de mágoa, mas eles sabem que isso vai ser bom pra mim, de algum modo vai.

10.4.08

Se eu perguntasse a você o que devia ter feito naquela noite certamente me diria que deveria ter ido embora. Pra minha casa. Eu teria chorado e certamente diria o quanto ainda te achava insensível. Mas eu tomei o ônibus errado até aquela rua escura onde tudo começou a tomar forma diferente. Dançamos a noite inteira mesmo tristes e exaustos. Fizemos sexo algumas vezes. Sentei no sofá e fiquei encarando meus pés. Você tremia o lábio nervosamente me causando uma irritação quase insuportável. Tínhamos que decidir coisas que você diria não serem tão importantes por enquanto, mas eu estava apressada pois sabia que o prazo da minha compreensão é curto. Em breve poderemos rir juntos de tudo isso, foi só isso que ouvi de você naquela noite onde quis morrer pra não te machucar. Porque antes de estar sentada naquele sofá eu era a mulher mais linda da cidade. Decididamente não devíamos ter aceitado a ajuda de tantas pessoas. Dançaria com você mesmo se todas elas me dissessem que não. Mas agora só temos que resolver esse problema: o que teria me dito naquela noite? No caminho eu pensei em te contar alguma coisa legal ou fazer sexo com você como fazíamos em qualquer lugar que nos desse vontade. Podíamos ter resolvido tudo se não fossem tão contraditórias nossas mentiras.

9.4.08


"O SHOW DO BOURBON

É HOJE, quarta.

Fiquei com um pequeno frio na espinha outro dia por conta do tal show do Bourbon. Há, eu que não temo palco nenhum, fiquei nervosinha.

E quando digo que não temo palco, não quer dizer que não respeito. Mas é que, porra, depois de trocentos anos entrando em cena, algum tipo de intimidade com isso você tem. Então vamos lá.

Não há lista VIP (detesto essa expressão, mas não achei outra melhor), então rola uma lista de meia-entrada.

Fica assim:
Show - 21:30
$28 - na porta
$14 - nome na lista

Para colocar o nome na lista, entre aqui e cadastre-se (escolha o assunto "Quero ir à festa da revista").

Nem preciso dizer que ficarei imensamente feliz se a casa estiver cheia de amigos. Vamos finalmente tocar fora de casa.

E eu prometo, Paulo de Tharso, encarnar a cantora e não fazer nenhuma gracinha com a platéia. Prometido, jurado, compromissado."
Fernanda D'Umbra

8.4.08

O quadro continua desalinhado. Pergunto as horas pra alguém que não está mais aqui há muito tempo. O quadro não é o único que não se enquadra. Desisti de apostar fichas nos heróis mortos, eu não ando por aí cagando regras ou me metendo entre revolucionários. Tenho muita idade e provavelmente pouco tempo pra pensar em todas essas coisas. Escrevi alguns poemas, quebrei uns cascos no bar do Tico e levei minha garota ao cinema. Ah sim, ela deixava uns dois ou três botões abertos e tudo era mais fácil naquela época. Meu pai vendia carros roubados e dizia que era um homem honesto, ele vendia o que seus amigos traziam, taí a honestidade da coisa. Mas fico olhando pra esse quadro em desalinho e imagino que minha vida poderia ter diferente, talvez melhor se não fosse essa maldita tosse que existe desde sempre. Merda de tosse e de lembranças que me fazem quere voltar lá e dizer que tudo não passou de um desentendido. Quando a gente tem um amigo, daqueles que te enchem o saco quando estão bêbados e vomitam no seu carro, são esses os amigos que me refiro, você tem que pensar nas suas palavras, porque tudo depende de você, entende? Podia ter mostrado pra ele que eu tava lá antes de sair correndo cagando de medo do que minha mulher ia pensar. Que se foda aquela vaca, foi embora e ainda sinto queimar o mesmo ódio daquela tarde. Tudo em desalinho, minhas idéias, a respiração do meu amigo e a honestidade da mulher. Não me atrevo a tocar em qualquer objeto que seja nesta casa. Mas é estranho esse quadro ainda caído, como se desse a idéia de qualquer coisa que assusta. Não sei do que estou falando. Apenas me intriga muito esse único quadro caído me fazer lembrar de tantas coisas e ter vontade de passar por todas elas outra vez. Só que dessa vez eu deixaria as coisas bem claras. Talvez tivesse uma chance...

7.4.08

Sexta-feira eu fui ao dentista. Passei algumas horas com aqueles olhos verdes mirando lá dentro da minha boca. Muita anestesia, muito sangue, dor de barriga, ciso com raiz inflamada dando trabalho. Saí de lá com a cara um pouco torta e babando com a boca aberta, horrível. Me deram uma máscara daquelas que os dentistas usam, pelo menos até a hora que a anestesia acabasse. Do consultório até o conjunto nacional, na Av. Paulista, gastei menos que vinte minutos. Consegui chegar a tempo pra sessão das 15:30 no cine bombril. Uma sessão sem pipocas, coca-cola grande ou balinhas de goma. O que não fez-me falta. Ótimo filme! Na saída do cinema encontro com o Ademir, paciente com as minhas manhas e choraminguações. Com um dente a menos fiquei um pouco mais dramática e mal humorada. Mas isso foi passageiro...
Bom, hoje as coisas voltam ao normal. A bochecha desinchou e o antibiótico me livrou das dores. Só não posso ainda comer despreocupadamente. Do mais está tudo indo bem. Hoje é dia de pagar umas continhas, negociar umas outras e provavelmente alguma coisa vai sair do orçamento.

Hoje eu posso mastigar. E faço questão disso.

3.4.08

A Revolução dos Vegetais

Todo radicalismo enche o saco. Dei uma pesquisada e fiquei assombrado com os argumentos que os Vegetarianos Radicais ou “Vegans” como se auto-intitulam utilizam para defender seus ideais. Nos fóruns de discussão brindam onívoros como eu com adjetivos que vão desde fascistas até assassinos.

OK bacana defender o direito à vida dos animas, mas e o direito a vida dos vegetais? O tomate merece ser comido vivo? Sim, se o pobrezinho é colhido e comido fresco ainda está vivo!!! Quanta crueldade! E o infeliz alface que do nada é privado de sua vida tranqüila e do ar fresco da manhã para alimentar esse facínora radical? Coitada da couve que é abduzida de sua horta para alimentar o vegetariano malvado!

Brincadeiras à parte, se lutam tanto pelo direito a vida deveriam respeitar quem não compactua com seus ideais, o indivíduo com ponto de vista diferenciado também é vida ora bolas! É o mesmo radicalismo intolerante de algumas religiões, se você come carne está condenado ao inferno, você é um pecador.

Deveriam lutar contra as “MONSANTOS” da vida, multinacionais que exploram nosso país e nosso povo com seu monopólio no ramo de herbicidas. Salvem os vegetais desse lixo! Lutem contra os trangênicos!

Continuarei onívoro, não mudarei minha natureza. Continuo apreciando uma picanha mal passada, mas não me venham chamar de assassino que eu também os acusarei de matadores de tomates, pois eles também são seres vivos. Quanta abobrinha!

Marcelo Rezende - no blog Que Nada!!!
Casal 20 cervejas!


(click do Pierre via Obturador)

2.4.08

Estava no trem encostada perto da porta e bem próxima de duas mulheres. Elas conversavam alto e isso me incomodou um pouco. Outras pessoas conversavam alto e isso me incomodava ainda mais. As duas que tagarelavam perto de onde eu tentava me fazer invisível, falavam sobre um caso que vi no jornal, sobre a morte de uma menina que pode ter sido atirada do prédio pelo pai. Logo, uma delas começou a falar da morte de um garoto que foi seu vizinho (devo confessar que a essa altura eu já estava prestando atenção na conversa. minhas consultas, o extrato da conta corrente e o chaveiro ficaram esperando um pouco mais de silêncio). O garoto tinha dezesseis anos de idade, estudava desde bem pequeno em colégios religiosos, até a primeira série estudou em uma escola católica numa sala só de meninos, da primeira séria em diante frequentava um colégio adventista. Super rigoroso segundo a narradora. Os pais tinham vida bacana, dinheiro nunca faltou. Tinha uma irmã bem mais nova que fazia aula de canto com o coral da igreja adventista. A mãe teve um problema de saúde e depois que começou a frequentar os cultos ficou boa. Assim, derrepente. E todo mundo pirou. Até a irmã mais nova que achou ser um dom divino a voz melodiosa, passando a se enterrar cada vez mais naquilo. O garoto, que ouvi o nome também, Tiago, nunca gostou de nada disso. Dos colégios, da loucura dos pais, da obssessão da irmã. O moleque se matou, tomou um puta coquetel de veneno, remédios e drogas. Deixou uma carta pros pais pedindo que não cometessem com a menina, a irmãzinha, o mesmo erro. A mulher que contava tudo isso ainda disse que ele usou essas palavras "chega de assassinatos, amo vocês". Elas falaram da inveja que brotava. Inveja da casa, da condição financeira daquela família, da voz da pequena menina. "o pai do Tiago é um homem bonito, mesmo com aquelas enormes olheiras" Eu, ali prestando atenção numa conversa que nem me interessava muito, bêbada de sono, tentando me equilibrar num sapato impossível e elas dividindo suas invejas. Também senti uma ponta de inveja, uma inveja leve e quase amorosa. Aquele garoto teve que ter coragem, o que algumas pessoas podem chamar de covardia no caso de um suicídio. Invejei a atitude dele, de tentar salvar a irmã daquilo que ele já conhecia. De não ter ódio apesar de tudo daqueles que o fizeram crescer entre crenças que nem eles, que as impunham, acreditavam. De não sentir falta do que podia comprar. Porque ninguém entende.

Eu não consegui prestar atenção em mais nada dentro daquele trem, eu saí dali antes mesmo do vagão parar na estação.

Meus dentes continuavam pedindo atenção, precisava passar no banco antes de chegar no trabalho e ainda tinha o chaveiro. Percebi que as coisas são piores pra gente de qualquer maneira. É isso que queremos. Mas fiquei pensando por muitas horas naquele garoto suicida. Naquele garoto estranho, que emprestei por alguns instantes sua dor.

O mágico tirou um coelho da cartola. Me entregou o coelho erguido pelas orelhas de algodão. Deixei o bichinho cair no chão e a cabeça rachou e tingiu aquele pelo branquinho. Ela me olhou com reprovação como se quisesse me convercer que aquilo fosse sempre acontecer. Não mesmo. Estiquei meu dedo médio e sorri pra ela. Mamãe acha que não sou capaz de cuidar dos bichinhos. O que ela não sabe é que eu fico feliz quando os vejo parados, calados, gelados. Ela não entende nada. Na próxima vez que ela me olhar daquele jeito agarro o coelho pelas orelhas e atiro bem no meio da cara dela. Eu não matei porra nenhuma. Ele caiu, escorregou, culpa daquele mágico de fundo de quintal. E eu tenho certeza que ela vai repetir a mesma história do cachorro, do gato e dos peixinhos, mas eu não tive culpa em nada. Juro. Mas ela nunca acredita em mim, não tem jeito. E tenta me enganar o tempo todo. Mas agora já não me importam as marcas que vão ficar por debaixo da minha camiseta. Giro pelas orelhas e arremesso bem no meio da cara dela. Pior é que ela tem uma puta cara de mãe, mesmo, e isso me incomoda um pouco.